20 de Abril de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Cândido Pereira

Recordando mercearias, tascas e outras lojas

1 de Fevereiro 2019

A excelente localização da vila de Condeixa, servida pelo importante eixo rodoviário Porto-Lisboa, acrescida ainda por óptimas vias de comunicação com os concelhos limítrofes e o facto de ser uma localidade com características semi-urbanas, semi-rurais, com esta última vertente a facilitar as trocas comerciais facilitadas por mercados públicos bi-semanais, deve ter contribuído para o elevado  número de estabelecimentos que sempre existiram.

Durante muitas décadas, assim foi. O progresso, porém, tem-se encarregado de desmantelar tudo. Primeiro, foi a implantação de novos sistemas de comércio, as chamadas “superfícies comerciais”, que nas terras pequenas tomaram o nome de “mini-mercado”. Depois, novas regras higiénicas proibiram as velhas tabernas de chão de terra batida e coberto de serradura, balcão simples com o mosqueiro, tosco móvel de madeira e rede muito fina, destinado a proteger de insectos pratinhos de iscas ou de sardinhas fritas.
Em alguns casos, as mercearias eram simultaneamente tabernas. Ao mesmo balcão era aviado o copo de vinho ou o quarto de quilo de açúcar. Mas, na generalidade, os espaços eram diferentes.
Em Condeixa existiam característicos estabelecimentos como os descritos.
A “loja do Zé David” tinha três espaços distintos de comércio: à entrada, a mercearia, pequena e de pouco movimento; num nível inferior, a taberna e, subindo umas escadas, o acesso ao quintal, onde se situava a cozinha e a sala de refeições. A fama desta loja provinha da sua proprietária, a “Ti Celeste”, do Zé David, por razão óbvia, que tinha mãos de fada para confeccionar o cabrito assado. Ficou para a posteridade a fama do seu  “cabrito assado, com batatinhas porra!”. A estranha designação provém da resposta que ela tinha sempre na ponta da língua, quando os clientes a queriam arreliar. “Ti Celeste, como é hoje o cabrito?”. Agastada (ou fingindo-se!), respondia: “Ora como havia de ser? Com batatinhas, porra!”.
A loja mais polivalente da vila, era o Zé Curto, ao fundo de Condeixinha. Acumulava as funções de mercearia, taberna, venda de cavacas de pinho para o fogão e até venda de pombos para fazer uma canjinha de doente. Curiosa era a forma como “caçava” esses pombos. A grande empena oeste do prédio tinha, espaçadamente, aberturas escavadas na parede para servir de ninho às pombas. Quando algum cliente ia à loja comprar “um borracho p’ra fazer um caldinho”. O Zé Curto, filho, porque o pai tinha o mesmo nome e a mesma simpatia, vinha cá fora com a caçadeira, escolhia a “peça” a abater e aí vai chumbo. Outros tempos, claro!
Outra característica desta loja era a o facto de servir como banca privada, com empréstimo de dinheiro a juros. Mas isso acontecia em toda a vila, particularmente nos estabelecimentos cujos donos possuíam meios de fortuna.
Em plena Praça da República, havia a loja de David Salazar, com mercearia e taberna, sendo que esta se situava num plano muito inferior à quota da estrada, numa espécie de túnel que se estendia ladeando a parte subterrânea do Caldeirão, quase até meio da Praça. Diziam que este túnel pertencia ao palácio da Casa Alverca, grande edifício incendiado pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, e que teria sido feito para facilitar a fuga dos proprietários em caso de necessidade.

Mas a dominar toda a Praça, está o imponente prédio da Farmácia Rocha, de fachada revestida com placas de granito, e que é hoje o mais antigo estabelecimento, sempre do mesmo ramo, que existe em Condeixa. A data da sua construção está gravada no frontão: 20/8/1876. Chamava-se inicialmente Farmácia Gama, de Francisco Gama, e foi adquirida por Fortunato Rocha da Fonseca. O filho deste, Dr. Júlio Pires Rocha, era um empresário sui-generis. Licenciado em farmácia, foi inventor de vários medicamentos que manipulava no seu laboratório. Frequentemente, quando os clientes solicitavam um medicamento de marca, ele fornecia um equivalente da mesma eficácia, feito por si e sem cobrar qualquer quantia.
Mesmo a abrir as portas da Avenida, dois edifícios, frente-a-frente, ambos com o rés-do-chão destinado ao comércio e os andares superiores como habitação dos proprietários. O lindo prédio estilo Deco era armazém de cereais. Foi literalmente alterado e é hoje uma instituição bancária.


  • Director: Lino Vinhal
  • Director-Adjunto: Luís Carlos Melo

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