13 de Novembro de 2018 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Fernando Abreu

Percurso pedestre no município de Condeixa (III)

2 de Novembro 2018

Em 1315 a chuva era frequente na Europa, sobretudo do norte, e, na estação invernosa, as temperaturas foram extremamente baixas dando origem a fomes constantes, quando, pouco depois, surgem a Peste Negra (1347) e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre a França e a Inglaterra. Pese embora todo o caos emergente destas condições adversas, as rotas de peregrinos mantiveram-se devido à arreigada crença de, perante o castigo divino, existir uma maior necessidade de alívio e reconciliação com a entidade suprema.

No decurso dos tempos os caminhos europeus e portugueses foram aparecendo apoiados por locais de paragem e descanso: albergarias, casas de pasto, conventos e hospitais. Se, no caminho, não existiam edifícios deste tipo os peregrinos acomodavam-se em abrigo de pastores, estábulos, ou na cabana do mundo camponês, cumprindo-se a hospitalidade devida, por ser Cristo o caminhante. Os reis e grandes senhores da nobreza aproveitavam o seu direito de aposentadoria para dormirem e comerem gratuitamente, o que dava origem a protestos por parte dos particulares, suportes desse direito feudal. Talvez por isso, em Portugal, as Cortes de Lisboa de 1439 decidiram que fossem criadas em localidades muradas estalagens para servirem os peregrinos.

Os peregrinos que demandam Santiago de Compostela usam o bordão para apoio e medirem o espaço percorrido, com uma cabaça presa, cheia de água ou vinho para beberem no percurso (Com pão e vinho se faz o caminho, diz o povo); a escarcela, pequena bolsa de couro para guardar o dinheiro, e a vieira. Neste último caso, a sua origem tanto pode estar no facto das saliências da concha representarem, presumimos nós, as várias direcções dos pontos cardeais e colaterais da rosa-dos-ventos; as conchas recolhidas no cabo Finisterra, na Galiza, onde, em antigas tradições, o mundo habitado tinha fim e começava o «mar tenebroso»; quando, numa boda celebrada perto da actual cidade do Porto, um grupo de cavaleiros jogava com as suas lanças e um deles caiu ao mar com a montada. Ao desaparecer nas águas revoltas imaginou-se o pior. Reapareceu perto da barca do Apóstolo coberto de conchas, incluindo o cavalo, ou, por último, e não menos importante e verídica, na minha perspectiva, a concha que é utilizada para beber água nos regatos e fontanários disseminados no caminho, em substituição dos copos de vidro, que, aparecendo, são geralmente propriedade de peregrinos abastados.

Depois de chegar a Santiago de Compostela, após a Missa do Peregrino, era usual os caminhantes subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores as vestimentas sujas e suadas utilizadas no percurso. No interior do templo compostelano, talvez por motivos relacionados com a necessidade de purificar o espaço, cheio de peregrinos, cujas regras de higiene deixavam muito a desejar, depois de dezenas ou centenas de quilómetros percorridos, mas seguramente por motivos litúrgicos, instalou-se um incensário, o botafumeiro, movido por oito homens, os tiraboleiros, vestidos de vermelho e preparados para o manusear através de cordas que medem 65 metros, 5 cm de diâmetro e pesam 90 quilos.

(continua na próxima edição)


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