26 de Agosto de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Natércia Martins

Fome, sono ou… manha do dono?

2 de Agosto 2019

O bocejo ou abrir a boca e deixar sair toda a preguiça que se instalou sem pedir licença.

Abrir a boca muitas vezes seguidas pode significar que estamos cansados.

Mas a sabedoria ou cultura popular imprime-lhe outro significado. Claro que o céu ou inferno estão associados. Aliás como em quase tudo o que diz respeito a estes fenómenos, se é que podemos chamar-lhes assim.

Quando eu ou o meu irmão ou mesmo outra pessoa que estivesse por perto da minha mãe e abríssemos a boca muitas vezes era certo e sabido:

– Estás cheiinha de quebranto!

E lá ia ela com uma jarrinha cheia de água, um pratinho branco e a almotolia de azeite. Então, sem permitir perguntas deixava cair no pratinho que entretanto enchia da água da jarrinha. Deitava três pingos de azeite, ao mesmo tempo que dizia uma oração meio impercetível. Se os pingos do azeite desapareciam repetia-se a operação até os pingos do azeite ficarem redondinhos dentro da água do pratinho branco.

Pronto! Quebranto tirado.

Antes da minha mãe havia a minha avó Amélia que, em conversa me explicou como “ cortar” o mau-olhado ou quebranto Se tínhamos quebranto, isto é, se bocejávamos mais que o normal também nos fazia sentar num banquinho e com a faca do pão, porque tinha o cabo de madeira, passava por cima da nossa cabeça com ela. Dizia o nosso nome e lá vinha a oração, dita em surdina: se tens quebranto, mal de inveja ou soberba, eu te tiro com a faca do pão, com o poder de Deus e da Virgem Maria. Pai Nosso e Avé Maria.

Se a pessoa não estava presente ela fazia cruzes por cima de uma foto dessa pessoa, com a tal faca do pão. E fazia isto cerca de nove vezes. A pessoa que faz, como a “ doente”, se abrem muitas vezes a boca é sinal que o mal está a sair. Se isto acontecer não se preocupe.

A faca com o cabo de madeira simboliza uma adaga. Corta o mal simbolicamente.

As pessoas antigas e muitas vezes analfabetas pensavam que tudo na vida das pessoas era conectado com a religião ou o cosmos. Era a fé que se tinha ou ainda tem que explica (ou não) estas coisas.

Bocejar? Todos bocejamos desde os primórdios do mundo.

Bocejar não é mau nem bom apenas significa um ajuste de energias.

O bocejo indica que temos sono, estamos cansados ou mesmo depois de uma noite bem dormida. É um movimento muscular que se produz tanto nas pessoas como nos animais. Uma vez iniciado é impossível interromper. A pessoa pode fechar a boca mas os músculos estão a ser acionados pelo reflexo.

Pode ser no quentinho da lareira, no inverno, depois de uma sesta no verão, nos dias quentes, com as cegarregas a cantar nos pinheiros. Talvez numa conferência e quando a “ coisa” não nos interessa nada. E quando rezamos? Claro que bocejamos. Involuntariamente mas não deixa de ser um ou uns bocejos.

Talvez não saiba mas os fetos também bocejam dentro do ventre materno.

O bocejo é contagioso? É contagioso mas não como doença. Se uma pessoa começa a bocejar involuntariamente todos bocejam, os que se encontram à sua volta.

E ainda: antigamente pensava-se que se bocejássemos sem pôr a mão na frente da boca, que os diabos entravam no corpo.

Sempre a luta entre anjos e demónios. Como a nossa gente sabe destas cosas. Estas tradições transmitem-se sempre por via oral. De mães para filhas ou avós para as netas. Também quase sempre são as mulheres a via de transmissão.

Mas ainda se ouve ao abrimos a boca: fome, sono ou manha do dono.

Afinal é verdadeiro: se temos fome, bocejamos. Se temos sono bocejamos. Se não temos nada, apenas entediados, bocejamos.


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