26 de Maio de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Natércia Martins

Conversa de caçadores

1 de Março 2019

O meu tio Alberto era um homem de fraca estatura, gordo e quase careca. De humor fino, no dizer do meu vizinho que costumava passar lá por casa, levando um cestinho cheio de pêssegos, no tempo deles. Lindos, vermelhos e amarelos. Outras vezes meia dúzia de figos lampos ou mesmo pingo de mel. Uma delícia!

O meu tio agarrava um. Dava-lhe umas quantas voltas como a admirar aquela maravilha da natureza. Depois comia um, dois ou três, conforme o apetite, que dizia nunca lhe faltar.

O meu vizinho sentava-se num banco pequeno. Dizia que se fosse num grande podia cair, partia uma ou duas costelas. Assim o trambolhão seria menor.

O meu vizinho gostava de conversar com o meu tio Alberto que lhe dava trela.

Dizia que ele era um “gajo porreiro”.

Falavam de caça e cada um deles tinha algumas peripécias desses tempos.

Sabíamos que parte daquilo era pura ficção mas eles pensavam que acreditávamos.

– Aquela perdiz que filei e só com um tiro caiu a meus pés!

– E eu, um dia, atirei também a uma perdiz. Escolhi a melhor no bando e… certeiro! Dizia o meu tio.

A maior parte das vezes chegava a casa sem nada no cinto. Só a cartucheira pendurada de lado. A espingarda aberta ao ombro e o fiel cão, de cauda farfalhuda à frente. Ele não se importava muito. Valia-lhe o passeio e respirar o ar puro no meio do mato. Até sabia onde as perdizes tinham os ninhos e gostava de os ver em fila atrás da mãe. E um coelhito a correr em zig zag. O que o divertia! Sentava-se numa pedra ou mesmo no chão a admirar como a natureza é pródiga. Preferia um passeio naqueles montes do que matar uma peça de caça. Não era grande caçador.

Mas tinha gabarolices de coisas que nunca aconteceram, aliás como todos os caçadores.

O meu tio contou que, uma vez, num dia de caça e no meio de um matagal lhe apareceu à frente um javali.

O meu vizinho, de olhos muito abertos, posso dizer esgazeados ainda disse:

– Senhor Alberto. Não! Um javali, não! Um javali, fui eu que matei! Um dos maiores que aí andam. Parecia um burro! Fiz pontaria e o tiro entrou no meio dos olhos.

– E o javali foi embora?, perguntou o meu tio.

– Não! Caiu ali aos meus pés. Morto!

Todos sabemos que um javali, além de não se caçar assim, não cai redondo só com um tiro de caçadeira.

Mas eles gostavam de contar as suas façanhas. Cada um mais valente que o outro.

Conversa de caçadores!

A mulher do meu vizinho também gostava de ir lá por casa.

Um dia, depois de ouvir mais umas quantas conversas destas, disse-lhe:

– O Sr. Joaquim é um homem valente. Até matou um javali!

A mulher deixou-me falar, puxou a ponta do avental, fez um pequeno nó numa borda e olhando-me, meio aparvalhada perguntou

– A senhora, afinal, está a falar de quem?

– Oh! Criatura! Do seu marido!

– O meu marido?! Ele nem tem espingarda. E se tivesse morria com medo que se disparasse sozinha!

Afinal, dois caçadores no prato ou… nem isso!


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