24 de Março de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Paulo Júlio

Bom Ano Novo!

4 de Janeiro 2019

Costuma-se dizer “ano novo, vida nova”. Também se costumam formular uns desejos como consequência de uma rara reflexão sobre o que se fez e o que não se conseguiu atingir. Num tempo em que o tempo voa, só a paragem para reflectir e pensar um pouco mais sobre a vida, já é motivo de satisfação e de bom augúrio social.

Vivemos num País com um clima quase fantástico temperado pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo que nos proporciona uma fileira de produtos agrícolas de excelência, uma gastronomia autêntica, somos geralmente afáveis e trabalhadores com boa reputação, como fazem prova todos os que se espalharam pelo Mundo. Claro que temos os nossos defeitos, como seja a falta de foco, alguma propensão para a pouca organização e alguma tendência por nos contentarmos com pouco. A história molda-nos. O tempo de descobrimentos mostrou uma ambição e uma coragem admiráveis, num tempo em que a monarquia permitiu ter estratégia e dar corpo a um caminho que nos diferenciou enquanto nação. Durou o suficiente para podermos ter aproveitado melhor enquanto povo. Para nos termos preparado melhor, democratizado mais a educação, ampliar melhor as nossas elites e traçar a estratégia seguinte.

Veio a revolução industrial e ficámos para trás. Sobretudo ficámos para trás porque a educação e a cultura não chegou. E quando não chega, o resultado é irremediavelmente escasso e pobre. A monarquia caiu de tão podre que estava e os últimos 100 anos foram passados como todos sabemos. Depois de 1910 até ao final da década de 20, os governos sucederam-se num passo desgraçadamente dramático e instável, revelando pouca maturidade política e social das elites, acompanhadas do distanciamento ignorante da sociedade que procurava sobreviver. Depois, foram mais de 40 anos de ditadura e de isolamento. Quanto mais pobrezinhos, mais capazes de encontrar a paz celestial. O Estado a ocupar-se de todas as frentes, menos as que eram, de forma controlada, deixadas a algumas famílias de empresários que nunca sentiram muita necessidade em modernizar-se porque o mercado era fechado e pouco concorrencial. Muitos lutaram e morreram para inverter este caminho do nacional porreirismo miserável. Um povo vetado à pobreza. Um Portugal fechado que produziu emigrantes em barda para o Brasil, para os Estados Unidos, para vários países do Centro da Europa, para colónias de África porque ficar, era sinónimo de viver na miséria.

Foi só há 45 anos que saímos da letargia de uma ditadura que venceu porque as elites que se mostraram não estavam preparadas para coisa nenhuma, não tinham uma estratégia de desenvolvimento ou, pelo menos, não tiveram força política para o fazer.

Depois de um período de uma década a acertar caminho, a preparar a integração na União Europeia, a criar as bases de um sistema democrático que levasse desenvolvimento a todo o território, a finalmente democratizar o ensino superior para quem tinha capacidade intelectual, apesar de não pertencer a famílias endinheiradas, entrámos na Comunidade Económica Europeia e, com os nossos problemas, parecia que tínhamos compreendido o mal que fizemos e o bem que desejávamos para nos afirmarmos novamente como Nação. Integrámos a moeda única, substituindo o Escudo pelo Euro, observámos espantados que a globalização dos produtos e serviços nos expunham a uma concorrência que o nosso tecido empresarial quase desconhecia por completo, quanto mais antevê-la com estratégia.

Naquele fim de década de 90, início de século XX, os sectores industriais tradicionais sucumbiram porque ainda não tinham criado marcas, não tinham associado design, nem preparado o “chão de fábrica” com equipamentos que lhes permitissem ser mais competitivos.

Com o Euro, vieram as obrigações sobre alguns indicadores macro-económicos, faltou-nos o mecanismo de desvalorização da moeda que nos permitia encapotar os problemas endémicos na nossa economia e batemos de frente com a primeira crise deste século. Depois, a crise do subprime e das dívidas soberanas de 2008 associada a um governo socialista que fez galopar a dívida pública para níveis estratosféricos, levou-nos em 2011 a mais um pedido de resgate porque o Estado tinha quase entrado em bancarrota, arrastando consigo milhares de empresas e provocando muitas centenas de milhares de desempregados. Parece uma sina.

Portugal tem tudo para ser um território equilibrado e desenvolvido, mas passamos a vida a corrigir erros. Sem estratégia porque quando se corrigem erros, o foco é salvarmo-nos. Depois do período do resgate financeiro que durou 4 anos, no qual os portugueses, mais uma vez, fizeram prova do seu estoicismo, parecia que estavam criadas as condições para, finalmente, se arrancar com uma estratégia nacional que nos pudesse levar para níveis de desenvolvimento normais. Na educação, na cultura, na economia, na inovação.

Em 2015, houve eleições mas o cenário político encontrado, mais uma vez, não permitiria fazer grande coisa. O Estado iria continuar como estava depois da Troika, o que já não foi mau, uma vez que ainda se temeu que ainda mais medidas voltassem para trás. Ainda assim, o Estado voltou às 35 horas de trabalho semanal, apesar de ter saído de uma falência técnica que todos os portugueses pagaram com língua de palmo. Os bancos tiveram que receber milhares de milhões de liquidez, salvos pelo Banco Central Europeu que se fartou de fazer “papel” e limitámo-nos a fazer aprovar orçamentos que agradassem o mais possível. A carga fiscal aumentou ainda mais, as empresas, que são quem colocou a economia a mexer e permitiu criar emprego líquido, foram tratadas por alguma classe política com desprezo e incompreensão.

E assim estamos em 2019, o ano de novas eleições e, portanto, mais um ano em que poderemos desenhar uma estratégia. Uma estratégia de reforma contínua de modernização do Estado, de alívio gradual da carga fiscal, de libertação da economia, uma estratégia para reforçar as competências adquiridas no sistema educativo que merece uma análise profunda, sob pena de ficar completamente obsoleto. Uma estratégia de desenvolvimento de território abrangente, de valorização do património e de fixação de investimento. Tenho esperança que possa ser desta. Fazermos, nos próximos 20 ou 30 anos, um Portugal com portugueses que acreditem no sistema. Uma estratégia de novos descobrimentos, com a mesma coragem e tenacidade. Com esforço, trabalho e optimismo.

Bom Ano Novo!


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