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Virgílio Caseiro, o reputado maestro que Ansião viu nascer

15 de Junho 2018

Foi na sua Ansião natal que despertou para os primeiros acordes, foi ali que aprendeu os iniciais “dó-ré-mis” que o levariam longe. Virgílio Caseiro, à beira de completar 70 anos, é um nome incontornável sempre que se fala de música.

O reputado maestro e docente prepara-se para deixar de reger, no próximo mês, o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra. É o fim de mais um capítulo numa história longa.

Começou cedo a estudar música, com um barbeiro de Ansião, que “ia fazendo as vezes de professor e me ensinou o que sabia e o que não sabia”, conta. Pela terra onde nasceu se manteve até completar o 5.º ano de escolaridade. “Depois para conseguir continuar os estudos o meu pai teve de fazer um esforço grande e mandar-me para Coimbra, onde com 16 aninhos me vi sozinho e abandonado, eu que até aí tinha sido o menino da mamã durante tantos anos”, recorda.

Quando chegou à cidade do Mondego trazia dois objectivos em mente: “um, continuar a estudar música, que era o que mais me agradava, e outro, estudar Engenharia Mecânica, porque o meu pai era industrial de automóveis”. Simultaneamente, inscreveu-se no Orfeon Académico onde foi 1.º tenor, iniciou também a sua prestação na tuna académica e fez ainda parte do grupo de danças regionais G.E.F.A.C. (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra).

Nunca chegou a concluir o curso de engenharia mecânica até porque cedo percebeu que tinha criado uma falsa relação de aprendizagem e de noção do que, efectivamente, seria esta área: “no primeiro ano consegui chumbar a tudo. Não me estupidifiquei, simplesmente as solicitações eram tantas que me deixei embebedar por essa riqueza de resposta e o curso, francamente, não me entusiasmava, porque eu quando pensava em Engenharia Mecânica pensava em mexer em carros, coisa que não tinha nada a ver porque o curso eram derivadas, integrais, resistências de materiais, cálculo, matemáticas gerais…era complicado”, explica Virgílio Caseiro.

Dar aulas

Em 1969 ingressou no serviço militar e optou, definitivamente, pela carreira musical. Casou quando terminou a tropa, tinha na altura 22 anos, e à esposa não poupa elogios: “Casei muito bem porque a minha esposa é uma jóia e consegue levar por diante uma caminhada difícil que é aturar-me”.

Com as modificações académicas decorrentes do 25 de Abril, e já a cantar no Orfeon desde 1972, teve oportunidade de dar aulas de matemática e ciências, aproveitando os conhecimentos adquiridos no curso de Engenharia Mecânica. Em 1978 terminou o Curso Superior de Canto, no Conservatório de Música de Coimbra, e licenciou-se em 1988 em Ciências Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa completando depois o mestrado na mesma área pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Por esta altura começou a dar aulas de música como profissional livre: “Comecei a dar aulas na ACM – Associação Cristã da Mocidade de Coimbra – numa sala que era uma lavandaria com máquinas de lavar, com cinco cordéis esticados e lençóis a secar e foi aqui que fui descobrindo a vertente lúdica da aprendizagem da expressão musical que depois se foi aperfeiçoamento. Francamente, depois de ter passado por uma panóplia de aliciamentos e hipóteses e soluções como a música coral, instrumental e dança, foi aquela que me conseguiu preencher mais e estimular que é a expressão musical com crianças, porque acho que os mais novos são um poço de novidades. Adorei e adoro trabalhar com crianças. É onde me sinto bem e é onde vou tentar prolongar ao máximo da minha existência e da minha saúde. Até porque, o criador da Faculdade de Biomédica do Porto, Abel Salazar, já dizia, em relação à medicina, que o médico que só souber medicina será toda a vida um triste médico e eu adaptei isso à música porque acho que ele estava cheio de razão…o músico que só souber música será sempre um triste músico”.

O último projecto

Virgílio Caseiro já percorreu o mundo, mas afirma nunca ter viajado em lazer. Reitera que foi em Coimbra que teve sucesso porque soube ter a lucidez para se enquadrar onde realmente era preciso: “Não nos podemos deixar embebedar por aquelas noções momentâneas de riqueza. Convidaram-me para ir para Lisboa dar aulas mas, convenhamos, em Lisboa eu não faço falta nenhuma! Em Lisboa há muitos músicos profissionais, bailarinos, artistas profissionais… é em Coimbra que eu sou preciso”.

Entre a década de 80 a 90 foi Maestro do Coro de Professores de Coimbra, criou e dirigiu a Orquestra da Câmara de Coimbra e o Grupo de Música medieval e renascentista “Ars Musicae”. Foi também maestro do Coro do Hospital Pediátrico de Coimbra e da Orquestra Clássica do Centro (além de co-fundador deste projecto nascido em 2003), e ainda professor adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra durante vários anos. Esteve 16 anos no comando do Orfeon Académico de Coimbra.

Hoje, além de professor de música na ACM, é ainda o maestro titular do Coro dos Antigos Orfeonistas, onde cessará funções no próximo dia 8 de Julho, concluídos, assim, 15 anos com essa responsabilidade artística, precisamente na data em que celebra 70 anos.

Os projectos, afirma, nascem a cada momento embora sinta já ter alcançado a plenitude no foro afectivo: “Tenho dois filhos e quatro netos. O ciclo familiar está cumprido. Vou desta terra para Marte – se o cemitério for em Marte – com a consciência tranquila: deixei tantos descendentes quantas pessoas investi na terra, eram duas, ficarão quatro”.

A nível profissional, no entanto, há ainda uma meta por completar: “Durante o tempo de professor era impossível porque as cordas vocais ressentem-se, um professor ou canta ou dá aulas. Mas agora, com este repouso matinal que tenho, talvez seja este o meu último projecto: gravar as “Novas Canções para Coimbra”.

NÁDIA MOURA


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