26 de Maio de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Pombalense João Gabriel Silva quer voltar ao ensino após deixar reitoria da UC

4 de Outubro 2018

A dez metros da linha do comboio, em Pombal, nascia em casa (“porque nessa altura a regra era essa”) João Gabriel Silva. E é nesta cidade que conclui o ensino primário mas, membro de uma família numerosa e de posses económicas limitadas, acompanha a família até Coimbra aos dez anos para frequentar o ensino público o qual, na altura, ainda não existia na sua terra natal. Volvidos 51 anos dessa mudança, não esquece as origens humildes e acredita que quase tudo na sua vida aconteceu de forma fortuita, desde a escolha das disciplinas na altura em que ingressou na, agora denominada, Escola Secundária José Falcão, ao cargo que hoje ocupa como Reitor da Universidade de Coimbra.

E, se as dificuldades pautaram o início de vida escolar, todo o seu percurso, reitera, ficou marcado pelo “arregaçar de mangas e o ultrapassar de barreiras”. Relembra, entre outros momentos da sua vida, os tempos conturbados do 25 de Abril coincidentes com a altura de ingresso no ensino superior, onde “incutiam aos jovens actividades de doutrinação política. Em 1975 fiz o serviço cívico e estive numa das casas abandonadas em São João do Campo a fazer um levantamento dos pássaros que havia na mata da Geria, porque havia a ideia de se transformar aquilo numa zona de protecção da natureza, o que nunca aconteceu. Acampei, literalmente, numa das casas abandonadas e o levantamento que fiz foi quase nenhum porque não percebia nada daquilo mas gostei da experiência. Em Agosto estive no Carregueiro, perto de Aljustrel, a abrir buracos para instalar sistema de esgotos e distribuição de água nessa aldeia. Eram actividades de doutrinação política e eu não achava muita graça a doutrinarem-nos politicamente, a porem-nos todos iguais”.

Ainda assim, acrescenta, “o 25 de Abril foi como que uma libertação. Aliás, houve até um episódio que teve muito significado, na altura eu tinha 17 anos, não se podia abrir a boca, a PIDE era uma ameaça permanente e tínhamos de ter muito cuidado com o que dizíamos publicamente. Eu, na altura, era finalista e fazia parte da comissão organizadora do baile de finalistas e esse baile tinha como função angariar dinheiro para depois fazer a viagem de finalistas à Madeira. Os voos de avião eram muito caros, a receita do baile de finalistas era insuficiente. Eu e alguns colegas fomos falar com o Reitor do liceu e ele recebeu-nos muito mal e acusou-nos de comunistas e que ainda chamava a PIDE…e nós cheios de medo porque o que lá íamos falar não tinha nada a ver com política. Isto aconteceu pouco antes do 25 de Abril, depois veio o 25 de Abril, a PIDE passou à história, eu integrei o Conselho Directivo do D. Duarte na representação dos estudantes e prontifiquei-me a tratar da viagem de finalistas. E pude levar a minha avante. Peguei no dinheiro do baile de finalistas, aluguei duas ou três camionetes, comprei frango assado e batata frita e fomos todos passar um dia à mata do Buçaco. Ninguém pagou um tostão que fosse”, conta com divertido e notório orgulho.

Na altura de ingressar no ensino superior, a escolha do curso deu-se, meramente, por exclusão de partes: “Tinha três cursos em alternativa quando entrei no ensino superior: Filosofia, Economia e Engenharia Electrotécnica. Não fui para Filosofia porque sempre me dei mal com argumentos de autoridade e aquilo que eu conhecia do ensino universitário na altura era que basicamente os alunos tinham de repetir o que os professores dissessem e não havia margem de discussão e eu não queria ir para um curso onde tinha de pensar mas na verdade não podia pensar; Economia era um curso muito marxista e ir para lá para ser doutrinado, também não queria, era um curso demasiado limitado; a Engenharia Electrotécnica era uma coisa pragmática e tinha uma grande componente de matemática que é fantástico porque não depende do professor, aquilo ou é ou não é”.

Em 1980, concluiu a licenciatura em Engenharia Electrotécnica, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra (FCTUC), instituição da qual, em 2009, foi eleito Director (cargo que ocupou até 2011) e onde foi Professor Assistente no início de carreira. Estagiou durante três meses na Holanda na Philips e, em 1988 obteve o grau de Doutor em Ciências de Engenharia, na especialidade de Informática, tendo sido aprovado por unanimidade, com distinção e louvor.

Concomitantemente ao cargo de Professor Catedrático na UC exerceu funções de investigação, desde 1979, actividade que iniciou no âmbito de um projecto financiado pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, a entidade que antecedeu a Fundação para a Ciência e Tecnologia. Esteve envolvido em projectos de investigação até ao ano de 2008, algo que, sublinha, lhe dá especial satisfação pela sua componente probatória sobre o que em Portugal mas, concretamente em Coimbra, se consegue fazer: “há um enorme apelo de descobrir coisas novas, uma satisfação quando encontramos e descobrimos novos caminhos… eu acho que não há nada de incontornável de não podermos fazer aqui, neste cantinho de Portugal, coisas relevantes para o mundo todo. Obviamente que é mais difícil que noutros sítios, como em Stanford ou em Oxford, mas quem gosta de desafios fá-los onde também são difíceis. O meu objectivo era mostrar que aqui também era possível fazer, e consegui-o. Orgulho-me de ter contribuído para que exista um cluster de empresas relevantes em Coimbra, a nível mundial, onde eu tive um papel muito activo. E era algo que muitos diziam ser impossível. Hoje ninguém contesta que em Coimbra há grandes empresas tecnológicas mas há vinte anos atrás riam-se na minha cara”, afirma.

João Gabriel Silva não esconde as “saudades em leccionar” e é por isso que afirma peremptório que não pretende recandidatar-se ao cargo de Reitor que hoje ocupa. “Ainda há muito a fazer. Termino em Fevereiro do próximo ano e vou manter-me em actividade muito intensa até lá mas encaro isto como o fecho de um ciclo, quero investigar, ensinar e transmitir conhecimento para a sociedade. E é isso que eu quero fazer, ainda que o Reitor também o faça mas aqui crio condições para o fazer, não sou eu directamente… é gratificante ser Reitor desta Universidade mas eu gosto de ter as mãos na massa”.

NÁDIA MOURA


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