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João Patrício, o professor que tanto viaja no tempo como dá vida ao faz de conta

10 de Junho 2019

Era uma vez um menino que nasceu no seio de uma família pobre em Lisboinha, uma pequena aldeia da freguesia de Pousaflores (Ansião). A infância dura deu-lhe forças para lutar por aquilo que sempre quis: uma vida melhor. Por isso, entrou em todos os jogos do destino para ganhar. E foi somando conquistas atrás de conquistas. Hoje tanto dá vida ao faz de conta, como embarca numa viagem no tempo levando consigo os seus alunos. Falamos de João Patrício Gomes, o professor que se aventurou como contador de histórias e chegou até actor.

João Patrício nasceu a 3 de Abril de 1955 em casa, “como todos nasciam nessa época”, contou ao TERRAS DE SICÓ, recordando uma “infância dura” marcada por “fome e frio”. O tempo era dividido entre a escola, para onde ia a pé e descalço, e os campos, onde guardava o gado.

Molhar os pés

À vila de Ansião foi pela primeira vez “teria 6 ou 7 anos” para levar as vacinas e voltou passados poucos anos para ingressar no Externato António Soares Barbosa. Foi nessa altura que conheceu as lendas associadas à Rainha Santa Isabel, que séculos antes fazia questão de passar por Ansião nas suas viagens entre Tomar e Coimbra para “molhar os pés nas águas milagrosas do Rio Nabão”. E tal como ela, também João Patrício lá fora molhar os pés várias vezes com esperança de que o milagre acontecesse e lhe trouxesse uma vida melhor. Mas não ficou à espera do milagre, foi à luta.

Assim, terminado o 5.º ano (actual 9.º ano) teria de rumar para fora do concelho para continuar os estudos, porém os seus pais não tinham condições financeiras para suportar tais despesas. O pai era cantoneiro na Câmara Municipal e “no Verão levava-me para a reparação das estradas”, onde “via passar com frequência uma carrinha do Colégio Nun’Álvares, em Tomar”. Sabendo que o director era natural do Alvorge, um dia decidiu indagá-lo sobre a possibilidade de ir trabalhar e estudar no colégio. “Ele olhou para mim e disse-me: primeiro tens de cortar o cabelo”. Assim fez. E voltou mais apresentável para receber a notícia de que iria começar a trabalhar imediatamente como telefonista. “Não foi nada fácil”, recorda, alegando que “vinha de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, sem nunca ter saído de casa dos pais”. No início sentiu-se “muito sozinho”. Afinal, “estava num colégio enorme e desabitado, uma vez que eram férias”. “Também ninguém me ajudou”, lembra, adiantando que “talvez fosse isso que me ajudou a continuar a lutar pelo que queria”. A partir daí “foi sempre a trabalhar e estudar” até terminar a licenciatura em História.

Professor

“Hoje tenho 44 anos de serviço”, sublinha João Patrício, frisando que quando iniciou a carreira de docente “a figura do professor era muito querida e tinha um peso tremendo na sociedade, que se foi deteriorando até hoje”. “Agora, não renego que sou professor, mas por vezes oculto a minha profissão, porque a sua conotação nem sempre é a melhor”. Independentemente disso, aula após aula, mantém “o fascínio de embarcar numa viagem no tempo e proporcionar aos alunos essa mesma viagem” com base em “dramatizações históricas”, que promove também no quartel de Tomar no âmbito do Clube “Cadetes do Exército” e no Convento de Cristo.

Habituado a contar episódios da História do país e do mundo, certo dia João Patrício foi assistir a um espectáculo do grupo “O Contador de Histórias” e aventurou-se também ele a contar uma história. Depois dessa, seguiu-se outra e outra… “Tornei-me contador de histórias e de repente fui entrando na promoção da leitura e da escrita”, disse, notando que “hoje os meninos são ávidos de histórias em virtude dos computadores lhes darem jogos”.

Outra faceta: actor

Enquanto contador de histórias percorre o país de lés-a-lés, até que um dia alguém no público assiste à actuação de João Patrício e descobre nele outra faceta: a de actor. Abraçou assim mais um desafio e hoje divide o seu tempo entre o ensino, as histórias e a representação. “Seguramente já fiz 15 a 20 filmes, não só nacionais mas também internacionais”, congratula-se este ansianense, que foi ficando pela cidade dos Templários e hoje “tenho a pretensão de dizer que estou muito bem integrado em Tomar”, onde já foi “a figura da terra”, um feito que lhe falta ser em Ansião, a sua terra natal.

“Na representação gosto de encarnar personagens cómicas, bem-dispostas e com muita exteriorização”, revela, alegando que “na minha vida também sou assim desde pequeno”. Aliás, “a minha mãe diz que comecei a falar com seis meses e comia com a colher de lado para que poder continuar a falar”.

E se tivesse de escolher entre professor, contador de histórias e actor? “Não seria capaz”, adora a profissão de professor, tal como adora contar histórias e representar. Por isso, “faria o mesmo percurso”. “Agora se me perguntarem qual a actividade mais desafiante, é a de actor, sem dúvida”, adianta. E neste campo está neste momento a gravar a novela “Flor de Sal”, que será transmitida na SIC e cuja acção decorre no distrito de Leiria. Além disso, está a trabalhar também com o Teatro Canto Firme de Tomar e vai participar noutros projectos que serão desvendados brevemente.

Ansião

E Ansião? “Eu sempre vim cá, talvez seja injusto dizer que me esqueceram, mas este executivo camarário quer chamar a diáspora, ou seja, todos aqueles que são de Ansião e andam por fora”, afirmou João Patrício, adiantando que “tenho sido chamado no âmbito dessa dinâmica”. “Enfim, estou a ter um certo reconhecimento pelos políticos da minha terra e sinto-me orgulhoso por isso”.

Entre um trabalho, outro e ainda outro, está a família. “Não é fácil gerir tanta actividade sem nunca faltar na escola”, tal como “não é fácil arranjar tempo para a família, mas eles sabem que gosto disto e deixam-me ir, muitas vezes até me acompanham”.

CARINA GONÇALVES


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