26 de Maio de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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7 Maravilhas de Portugal: Sicó também tem doces de eleição

7 de Abril 2019

Doçaria conventual, biscoitos, doces e compotas, mel, bolos, doces de colher ou delícias inovadoras com produtos endógenos. A poucos dias de serem conhecidos os doces que passam à terceira fase do concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal, o TERRAS DE SICÓ embarcou numa saborosa viagem pela doçaria típica desta região. E são muitas as delícias que há por aqui. Por isso, os mais gulosos terão de se conter porque cada terra tem as suas iguarias. E são de comer e chorar por mais. Desde os Travesseiros de Chícharo de Alvaiázere, passando pelos Pastéis de Pinhão de Ansião, a Escarpiada de Condeixa, o mel do Espinhal (Penela), as Queijadas da Ti Maria Rata de Pombal, o Pão-de-ló de Soure, os doces e compotas de frutos, os biscoitos do Louriçal e de azeite… O difícil vai ser escolher!

Mas desengane-se quem pensa que as maravilhas da gastronomia de Sicó se resumem à doçaria. Afinal, a região, que tem como ex-libris a serra e apresenta uma grande diversidade de produtos endógenos, ostenta uma mesa rica que vai desde o queijo Rabaçal e os enchidos, aos pratos de cabrito e borrego. E para acompanhar estas iguarias nada melhor que os vinhos Terras de Sicó, sejam eles brancos ou tintos.

Mas, numa altura em que o país se prepara para eleger as 7 Maravilhas Doces de Portugal, focamo-nos na doçaria.

 

Desafio: eleger os melhores

Portugal é também um país de maravilhas doces. E prova disso foi a mobilização sem precedentes numa eleição 7 Maravilhas. O desafio era eleger os melhores doces de Portugal, enfatizando a tradição e a inovação associadas a determinada região do país. O resultado são 907 doces inscritos nas 7 categorias a concurso. Desses, uma dúzia são dos seis concelhos de Sicó.

Após a fase de candidaturas, que terminou a 7 de Março, os doces estão a ser votados por um painel de especialistas que, numa primeira fase, escolhe 21 de cada distrito ou região autónoma, que serão conhecidos a 7 de Abril. Destes, o painel de especialistas irá escolher apenas 7 chegando à lista final de 140 doces, que serão revelados a 8 de Maio e votados pelo público em 20 programas, a emitir em directo pela RTP, nos meses de Julho e Agosto. De cada programa sairá um pré-finalista que passa às semifinais.

Uma novidade desta edição é a existência de um júri constituído por sete figuras do espaço mediático, que irá repescar oito candidatos que se irão juntar aos 20 pré-finalistas.

Em cada semifinal, são apurados os sete doces com mais votos contabilizados. A gala final decorre a 7 de Setembro e será transmitida pela RTP1, em horário nobre, sendo eleitos os sete doces com selo “7 Maravilhas de Portugal”.

 

Travesseiro de chícharo: um doce leve envolvido numa massa estaladiça

A saborosa viagem pelas maravilhas doces de Sicó leva-nos até ao concelho de Alvaiázere, onde o chícharo se mistura com o doce. O resultado são delícias de comer e chorar por mais. Travesseiros de chícharo, pastéis de chícharo, queijadas de chícharo, tarte de chícharo, bombons de chícharo, pastel de nata com chícharo e pavlova de frutos vermelhos com chícharo. Estes são apenas os candidatos às 7 Maravilhas Doces de Portugal, porque há muitos mais.

Os doces de chícharo são efectivamente um sucesso em Alvaiázere, onde a criatividade à volta desta leguminosa não pára de surpreender os apreciadores do concelho e fora dele. E no cardápio da doçaria de chícharo, os travesseiros são um dos protagonistas. Foram apresentados no Alvaiázere Capital do Chícharo 2017 e deixaram os consumidores a salivar por mais.

Mas afinal o que faz deste um produto tão apreciado? “Talvez o facto ser um doce leve, que não é enjoativo, e cujo recheio é envolvido por uma massa filo leve, estaladiça e cremosa”, responde sem hesitar Catarina Oliveira, gerente da empresa Doce Felicidade. “Chícharo, farinha de amêndoa, raspa de limão e gema de ovo são os principais ingredientes e aqueles que conferem o sabor característico ao travesseiro de chícharo”, adianta, revelando que o recheio dos pastéis de chícharo é exactamente o mesmo dos travesseiros. Todavia, “fica bastante diferente, porque o tempo de cozedura é menor e a quantidade concentrada num e noutro também é diferente”.

Mas as diferenças vão mais além da textura, do sabor e da apresentação. As vendas ditam as preferências dos consumidores, que na hora de comprar elegem os travesseiros de chícharo. E não é só em Alvaiázere que podem ser adquiridos. Esta maravilha doce já chegou a “Leiria, Coimbra, Pombal, Caldas da Rainha e, em épocas específicas, a Viseu”, disse Catarina Oliveira, salientando que aumentar a produção e alargar a distribuição são “objectivos a médio prazo”.

Para isso, a empresa precisa de “investir num abatedor de temperatura que faça a congelação do produto fresco, para que a cozedura seja feita nos nossos clientes”, garantindo assim que os travesseiros de chícharo chegam aos consumidores com a melhor qualidade. Mas antes é necessário testar esse processo, por isso “estamos em fase de testes”.

Mas a Doce Felicidade não confecciona apenas delícias de chícharo. A empresa produz igualmente outros produtos, dos quais se destacam os biscoitos, uma área onde aumentaram recentemente a capacidade produtiva com a aquisição de um equipamento industrial. Além disso, “estamos a desenvolver um novo produto para absorver o desperdício de claras de ovo tanto dos pastéis como dos travesseiros de chícharo”, contou Catarina Oliveira, desvendando que em breve pretendem lançar “uma bolacha rica em proteína e adoçada em stevia, sem adição de açúcar e sem farinha de trigo”.

 

Ansião inovou com pastel de pinhão

Próximo destino: Ansião. Por aqui, serve-se o pastel de pinhão. Este doce foi confeccionado a partir de um produto endógeno e hoje funciona como uma autêntica marca local, promovido com o slogan: “Séculos de tradição… num pastel de pinhão”. A receita é recente, mas não deixa de ser uma delícia.

O pastel de pinhão é “fruto do saber secular associado à tradição e qualidade dos produtos endógenos”, realça uma nota da autarquia, que no final de 2016 lançou o desafiou de criar este novo produto identificativo do concelho na área da doçaria.

Este doce característico de Ansião surgiu com o objectivo de valorizar o pinhão e, ao mesmo tempo, sensibilizar a população para a importância estratégica dos produtos endógenos, em especial do pinhão.

Passados mais de dois anos, este pastel faz parte da ementa da região de Sicó e é candidato às 7 Maravilhas Doces de Portugal. Afinal, cumpre um dos requisitos do programa, que desafiava a inscrição de doces inovadores confeccionados à base de produtos endógenos, incentivando o empreendedorismo local.

 

Escarpiada, a suculenta doçura condeixense

A escarpiada é o doce típico de Condeixa, confeccionado com base numa receita secular que foi passando de geração em geração, feita à base de massa de pão, açúcar amarelo, canela e azeite. Vai ao forno e de lá sai de crosta dourada e com apetitosas camadas sumarentas de recheio, pronta a ser degustada. Agora é candidata a ser uma das “7 Maravilhas Doces de Portugal”.

Segundo reza a história, a iguaria sempre fez parte da alimentação dos antepassados condeixenses, especialmente durante as épocas festivas. Antigamente a escarpiada era confeccionada em grandes porções, servida em caçoila de barro, onde era cozida para ser cortada às fatias, mas a partir da segunda metade do século XX os padeiros locais passaram a produzi-las em doses individuais, encontrando-se disponíveis durante todo o ano em padarias, pastelarias e cafés.

Já lá vão mais de quatro décadas desde que Maria Vieira pôs as mãos na massa e se tornou especialista na confecção do doce que “adora”. “Comecei a fazer escarpiadas em 1975, quando me casei e o negócio dos pais do meu marido era na área da panificação, possuindo uma padaria na Barreira (Condeixa)”, conta aquela que é tida por muitos como uma referência na arte de a bem-fazer.

“A massa de pão – tem de ser massa de pão – é passada na mistura que é feita do açúcar amarelo, com a canela e algum azeite, é-lhe dada manualmente a forma rectangular e vai ao forno a cozer cerca de 20 minutos, dentro de um tabuleiro que deve conter uma fina camada de azeite”, explica. E o molho, tão apreciado? Estará aí o segredo que faz a diferença? “Não tem segredo. A própria escarpiada já leva azeite, o tabuleiro também, e é este ao misturar-se durante a cozedura com o açúcar e a canela que lhe dá o aspecto suculento. A escarpiada não precisa de mais molho, mas se o forno estiver mais forte e ela ficar um pouco mais seca, basta ferver açúcar amarelo num pouco de água, deixar apurar e colocar por cima do doce”, elucida Maria, agora mais retirada da produção, ajudando apenas o filho Samuel, que deu continuidade ao negócio de família na padaria Aquário, onde todos os dias são vendidas dezenas de escarpiadas. Maria Vieira refere que o doce “sempre teve muita saída” em Condeixa, onde “vem gente de muitos lados comprar”.

O Município candidatou o doce com marca registada ao concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal. “É mais uma oportunidade para promover os nossos produtos endógenos, que fazem parte e enriquecem o nosso património, feito de monumentos e paisagens, mas também de um receituário tradicional baseado nos nossos costumes e nas características do território que habitamos”, destaca o autarca Nuno Moita.

 

Mel, o “ouro líquido” produzido pela natureza

O roteiro pelas maravilhas doces de Sicó segue para Penela, onde podemos saborear o mais antigo produto da doçaria regional: o mel.

Por aqui, a geografia e o clima são propícios ao desenvolvimento da apicultura. A estes factores juntam-se ainda a diversidade e a riqueza da flora, que contribuem para um “ouro líquido” de excelente qualidade que tanto pode ser de origem Serra de Sicó, como Serra da Lousã, onde tem Denominação de Origem Protegida (DOP).

O mel é produzido nos seis concelhos de Sicó, destacando-se a freguesia do Espinhal que promove anualmente a Feira do Mel.

De coloração âmbar e por vezes muito escuro e viscoso, o mel desta região tem um excelente sabor, com notas de floresta, húmus e urze.

Porém, também por estes lados a produção de mel tem caído consideravelmente devido às ameaças dos incêndios, da vespa asiática e das doenças.

 

Queijadas da Ti Maria Rata distinguem-se pelo “sabor único”

A rota segue docemente até Pombal, onde também não faltam verdadeiras delícias da doçaria local. As Queijadas da Ti Maria Rata, os Beijinhos de Pombal e os Biscoitos do Louriçal são exemplos das maravilhas doces deste território. Por aqui, a tradição mantém-se tanto na doçaria popular como na conventual. E as Queijadas da Ti Maria Rata são prova disso…

Originárias do receituário de doçaria de Maria Gomes Carvalheiro (Maria Rata), estas queijadas são uma autêntica iguaria pombalense produzida e comercializada pela pastelaria Filinata em Pombal, que preserva a tradição e o segredo desta receita.

A fórmula de confecção das Queijadas da Ti Maria Rata chegou às mãos de Filipe Neves “através da falecida Maria Antónia, que na altura era proprietária da Farmácia Paiva e a única detentora da receita, que nos entregou a fórmula para esta não se perder”, contou ao TERRAS DE SICÓ Filipe Neves, gerente da pastelaria Filinata, sublinhando que se trata de “um produto muito apreciado e com muita saída em termos de comercialização”.

O ingrediente principal é o queijo, que associado aos restantes conferem às Queijadas da Ti Maria Rata um “sabor único e delicioso, que faz com que sejam tão apreciadas”, realça Filipe Neves, que desde 1998 produz este doce tradicional.

Esta iguaria pombalense é constituída por uma caixa de massa fina, feita com farinha, leite e manteiga, que é recheada com um doce fabricado essencialmente com queijo fresco, ovos, farinha de trigo, açúcar e manteiga.

“Confeccionada com produtos de origem nacional, a queijada da Ti Maria Rata tem uma forma característica, que a torna invulgar e diferente das demais, uma vez que na sua elaboração se utilizam umas formas, de configuração única, de formato arredondado, com nove pontas, cujo modelo foi criado pela própria Maria Rata, no Largo do Cardal, em Pombal, por volta de 1930”, sublinha a autarquia.

Estas queijadas, a par dos Beijinhos de Pombal, são “os mais conceituados doces do concelho”, adianta a edilidade, alegando que “fazem parte da identidade colectiva dos pombalenses, constituindo-se como símbolos identitários da gastronomia, da cultura e da história contemporânea do concelho”. Por isso, o Município de Pombal apresentou uma candidatura ao concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal, inscrevendo na competição estas duas delícias da doçaria pombalense.

De referir que os Beijinhos de Pombal são um bolo seco, macio e leve, totalmente envolvido por uma cobertura de clara de ovo e açúcar aromatizado com ligeiro sabor a baunilha.

 

Pão-de-ló mantém sabor da tradição

Nem é preciso concurso: o Pão-de-ló há muito que é uma das maravilhas de Soure, juntando-se aos biscoitos de azeite e aos suspiros no lote das “doçuras” locais.

A iguaria “vai ao forno” em várias latitudes, mas o que é preparado em Soure “é diferente”, garante Maria Estrela Martins, que todos os dias, há largos anos, o confecciona na padaria de que é proprietária no centro daquela vila e o “exporta” para vários destinos nacionais. “A procura é muita”, afirma.

Farinha, ovos, açúcar e a forma de alumínio barrada com manteiga. A receita é simples, mas parece ser a confecção a dar-lhe o toque de diferença. “Para mantermos a tradição e reforçarmos a qualidade”, a preparação de cada pão-de-ló é feita individualmente, “batido um a um”, nos formatos pequeno, médio e grande. A cozedura em forno a lenha é outro dos traços distintivos.

“Vai ao forno, de onde é retirado ao fim de 10/15 minutos para ser ´traçado´ e coberto com papel. Volta ao calor e cerca de uma hora depois está pronto”, explica Maria Estrela, realçando que tem de ficar “fofinho”. “O pão-de-ló é uma tradição muito antiga em Soure e enquanto puder irei continuar a preservá-la”, assegura, alertando, contudo, para “outros pães-de-ló que há por aí, mas não tem nada a ver…”.


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