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NATÉRCIA MARTINS

Um retrato

21 de Junho 2024

Desde que me mudei para esta casa, o retrato está ao cimo das escadas apoiado num suporte de cartão. Olha para mim como se me visse. Já não vive há muitos anos. É a minha bisavó Micaela.

Mulher de pequena estatura, não era muito fácil de aturar isto dizia quem a conheceu. Tal como eu, tinha a “mania” das portas. As portas têm que estar fechadas quando se vai para a cama. De dia até não importa muito. Posso dizer que pouco ou nada temos que roubar ou que interesse aos vizinhos. Mas à noite? Sim! À noite é muito diferente. Mania? Talvez!

Mas foi mesmo por causa das portas que ela morreu. Vamos ao aconteceu: a minha mãe foi criada com uma tia-avó porque a mãe dela, minha avó, tinha uma pequena loja onde se vendia vinho e chanfana, principalmente aos barqueiros que desciam o Mondego carregados com carqueja e com as mulheres que traziam a roupa para lavar no rio, coravam e secavam, ainda sem este estar assoreado. Portanto, não podia cuidar da filha em condições. A minha mãe e a prima, filha dessa tia, faziam as brincadeiras próprias da idade. Havia um vizinho que tinha uma perna de pau. Era manco. Quando descia as escadas de madeira, na época, fazia toc, toc. Elas riam. Um dia, morreu a gata onde ele tinha muita estimação. Então as duas fizeram uma coroa de carqueja que servia para acender o fogão. Levaram a coroa ao homem, muito penalizado com a morte da gata. Quando lhe entregaram a coroa, com a melhor das intenções. Este ficou furioso e foi a correr atrás com a perna de pau a fazer toc, toc. Brincadeiras da época onde não havia muito com que brincar.

Mas voltemos ao retrato. É que a senhora, minha bisavó, olha para mim e dá-me os bons dias. E eu a ela também. Nunca desço as escadas sem lhe dar os bons-dias. À noite é o mesmo. E ela imponente, mas quietinha no retrato também me deseja boa-noite. Se me esqueço fico mal comigo mesma.

A porta! Pois é. Já muito velhinha estava em casa dos filhos, como ainda hoje se faz. Uma noite, lembrou-se que não teriam fechado a porta de entrada de casa. Saiu da cama e foi certificar-se. Só que as escadas não tinham corrimão. Deu com o pé em falso, veio por ali abaixo e uns dias depois morreu.

Segundo diziam, era mulher de “pêlo na venta”. Os casamentos nessa época, lá pelos anos 1890, não eram com muitos acompanhantes. A família mais próxima. Chegou o dia do casamento e ao entrar na igreja, sem querer ela pisou-lhe o pé. Ele chamou-lhe bruta. Ela não disse nada, como quem deixa passar. Quando chegou à altura em que o padre pergunta se é de sua vontade casar com… ela não está com mais medidas e disse um alto e redondo ‘Não’. A reacção das pessoas não sei, mas certamente foram para casa.

Mais tarde casou ainda três vezes e ficou viúva com cerca de cinquenta anos, o que na época já era muita idade.

Gostava muito de ir ver a banda de música que se fazia ali mesmo ao lado, ao domingo, no coreto, onde hoje é a estação dos comboios. Uma tarde como muitas outras foi ver e ouvir a música, ao lado do coreto. Mas por uma razão qualquer armou-se uma grande zaragata. Ela fugiu, mas ao fugir perdeu uma chinela. O calçado desse tempo eram as chinelas. E era um luxo. Foi para casa que até nem era muito longe. Situava-se na rua Sargento- Mor. No dia seguinte foi à polícia também ali perto. O polícia, que a conhecia bem, trouxe-lhe as asas de um anjinho que foi a única coisa que encontraram.

Diziam que era mazinha de aturar? Ah! Pois era! Era sogra do meu avô Guilhermino, marido da minha avó Catarina, portanto, filha da bisavó Micaela. Como rezam as “crónicas” já nesse tempo, sogra e genro… não se davam muito bem. Diziam que o meu avô também não era de trato difícil.

Então, chateava-o: a sopa está salgada. Ele dizia que sim. A sopa está quente? Pois está, retorquia ele. E a conversa era sempre a mesma. Tanta zaragata fizeram os dois que a minha avó teve que os pôr a comer a horas diferentes. Feitios!!!


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