13 de Junho de 2024 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Soure: “Ramo” de pinhões cumpre tradição do Espírito Santo entre hoje e segunda-feira

17 de Maio 2024

Um pinhão. Dois pinhões… 297.853 pinhões. Perdemos-lhe a conta: no total são cerca de 900 fiadas, que perfazem mais de um quilómetro. Sim, leu bem. Um belíssimo quilómetro de pinhões, cuidadosamente enfiados em linha de algodão, que serve de decoração ao andor em honra do Divino Espírito Santo.

A tradição “é única no mundo”, conta Márcia Domingues da comissão de festas em honra do Divino Espírito Santo, que se realiza na pequena aldeia do Espírito Santo, na freguesia de Soure, já este fim-de-semana. Os festejos arrancam hoje e estendem-se até à próxima segunda-feira (20) com uma forte vertente cultural e de animação, mas é no domingo (19) que se dá o ponto alto das celebrações, quando o ‘ramo’ sai à rua em procissão, “transportado por quatro homens solteiros”. A eucaristia terá início pelas 15h30.

São centenas, ou mesmo milhares, os fiéis que se juntam para acompanhar o trajecto. “A última vez que o andor saiu à rua foi em 2019, antes da pandemia, e por isso esperamos que este ano seja um momento ainda mais especial”, afinal, “é muito importante que esta tradição se mantenha viva, e temos a noção de que a comunidade está sedenta de convívio, de festa, mas acima de tudo de retomar este costume”, que tem tanto de antigo como de singular.

Meses de preparação

Para que o andor se apresente graciosamente ao público, “foram precisos meses de preparação”, num processo totalmente comunitário, que vai além dos 12 mordomos que organizam as celebrações. “No total terão participado mais de 100 pessoas”, conta a responsável, enquanto explica todo o processo: “em Julho/Agosto fazemos a apanha da caruma, que irá servir para assar as pinhas”. Em Novembro as pinhas são apanhadas, pelos voluntários, em pinhais ‘oferecidos’ à comissão, ficam a secar até Janeiro, altura em que começa o trabalho de recolha dos pinhões. “As pinhas são queimadas e abertas” para se retirarem os pinhões. “Os homens partem a casca dura e as senhoras ficam com o trabalho de escolher, limpar e enfiar os pinhões em linhas de um metro cada”.

A tarefa pode parecer simples, “mas é minuciosa e delicada”, para além de exaustiva: é que estamos a falar de cerca de 900 fios, e provavelmente mais de 300.000 pinhões. Só depois “começam os trabalhos de decoração do ‘ramo’, que para além dos pinhões, é enfeitado com beijinhos de açúcar, laranjas e bolos tradicionais”.

No último dia de festa, altura em que são anunciados os mordomos do próximo ano, o ‘ramo’ é desmanchado e oferecido à população, “em troca de um contributo para a realização dos festejos do ano seguinte”.

Três séculos de história

“A tradição é muito antiga, com mais de três séculos de história”, conta Márcia Domingues. A mordoma admite que “é cada vez mais difícil encontrar pessoas disponíveis para assumir a realização das festas, por se tratar de um processo muito trabalhoso e que exige muita dedicação e tempo livre”, no entanto, “a festa nunca deixou de se fazer, e esperamos que assim continue por muitos anos”.

E se para os mais velhos “há um sentimento de pertença muito grande, os mais jovens também começam a perceber a importância de preservar esta tradição e de dar continuidade ao evento”, congratula. No fundo, “há aqui uma grande ligação entre mais novos e mais idosos, numa verdadeira transmissão de conhecimentos”. Até porque, “reza a lenda que quando não houver ninguém para agarrar no ‘ramo’, ele tem que ser enterrado no cemitério e acaba-se com a tradição”, coisa que até hoje, nunca aconteceu.

Animação e cultura popular

Para além da forte vertente religiosa, a comissão de festas, este ano composta por uma dúzia de mordomos, aposta num evento com actividades para todos os gostos, “temos espectáculos musicais, jogos tradicionais, apresentações de dança, momentos de etnografia e arruada pelas ruas da aldeia”. Com um orçamento que pode “facilmente chegar aos 30.000 euros”, Márcia Domingues revela que “promovemos diversas actividades durante o ano de forma a conseguirmos angariar algum dinheiro”, entre elas “caminhadas na natureza, um passeio de motas, um festival de sopas e dinamizamos um arraial de santos populares”, conta.

Para animar o evento, está agendado para a noite de hoje a actuação do grupo MoveDance e festa da cerveja, com o conjunto Banda Time. Amanhã, sábado, actua o grupo Fax e a noite termina ao som de DJ Rob Duartez. No domingo, prevê-se ‘casa cheia’ para assistir ao espectáculo com Augusto Canário e Amigos. No último dia de festejos, segunda-feira, há baile com Graciano Ricardo.

E será que faz sentido questionar sobre as expectativas da organização para a realização do evento? Márcia admite que “são bastante altas, até porque nesta altura do ano não há a realização de muitos eventos desse género”, e isso “pode ser uma mais-valia para que os visitantes se concentrem no Espírito Santo”, assegura.

Ao pinhão, há quem lhe chame caviar da floresta, na Capelania do Espírito Santo diz-se que é o “rei da festa”.

ANA LAURA DUARTE

[NOTÍCIA DA EDIÇÃO IMPRESSA]


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