13 de Junho de 2024 | Quinzenário Regional | Diário Online
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PAULO MARQUES DA SILVA

A inauguração do primeiro troço de auto-estrada em Portugal

17 de Maio 2024

Condeixa está indelevelmente ligada à Auto-estrada (AE) do Norte [A1]. Foi no ano de 1982 que abriu um troço entre Condeixa e a Mealhada. Mas só a 13 de Setembro de 1991 foram inaugurados os 87 Kms que faltavam para completar a AE do Norte, entre Torres Novas e Condeixa. A partir desse dia, passou a ser possível viajar de carro entre Lisboa e o Porto em apenas três horas, pagando 2.235 escudos de portagem, o equivalente a cerca 11 euros. Para perpetuar a data, foi inaugurada uma escultura de Charters de Almeida, um marco de aço inoxidável colocado ao quilómetro 180 (junto à saída para Condeixa), com 27 metros de altura. Mas voltemos um pouco mais atrás, a Maio de 1961.

O 1.º troço da AE, entre Lisboa e Vila Franca de Xira, começou a ser construído em 1954 e foi inaugurado no dia 28 de Maio de 1961, integrado nas comemorações oficiais do 35.º aniversário do Movimento de 28 de Maio de 1928. Isto, claro, não contando com os 8 Kms de AE entre Lisboa e o Estádio Nacional, que tinha características diferentes e fora inaugurada em 1944.

Com pouco mais do que 24 Kms, a inauguração decorreu com ampla cobertura da imprensa e contando com a presença dos mais altos representantes do País, como o Chefe de Estado, Américo Tomaz, acompanhado pelos Ministros da Presidência, do Interior, das Finanças e das Obras Públicas, os Presidentes da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa, o Cardeal Patriarca Manuel Cerejeira, as chefias do Exército, o Presidente da JAE, os Governadores Civis, Presidentes de Câmaras Municipais e Ministros e Embaixadores estrangeiros. Num ano difícil para o regime, a inauguração da AE representou um momento alto e de comemoração do regime.

Nesse domingo de 28 de Maio, realizou-se uma parada de material e de pessoal dos quatro empreiteiros, presidida pelo Chefe de Estado, que condecorou diversos engenheiros e empreiteiros ligados à obra. Seguiu-se, depois, um cortejo automóvel até Vila Franca de Xira, onde terminou a inauguração, cerca das 12h40.

António Salazar havia já visitado o local e percorrido o troço no dia anterior, acompanhado pelo Ministro das Obras Públicas, Arantes e Oliveira, o seu Subsecretário de Estado e o Presidente da JAE, general Flávio dos Santos.

É interessante hoje, mais de 60 anos decorridos, destacar algumas curiosidades sobre a obra. Com um custo de 303.000 contos (cerca de 12.450 contos por Km), para a sua construção foram demolidos 100 edifícios, com uma área total de 12.500 m2. O percurso tinha um tráfego diário de quase 10.000 veículos por dia, feito pela EN 10. A obra de arte mais importante e delicada foi o viaduto de Sacavém, já que o solo firme para efectuar as fundações estava a uma profundidade de 60 metros, o que obrigou à importação de uma potente máquina que espetou estacas até aquela profundidade, o que constituiu, na época, um novo máximo mundial.

Os preços das portagens eram os seguintes: classe 1 a 5$00, classe 2 a 7$50, classe 3 a 10$00 e classe 4 a 12$50 (escudos). Para maior comodidade, os automobilistas poderiam adquirir na praça de portagem de Sacavém, cadernetas para 10, 20 ou 30 viagens, em cada uma das classes. Segundo os cálculos, as receitas de portagens deviam pagar a obra em 30 anos.

O Presidente da JAE anunciava na imprensa que a circulação seria gratuita no dia da inauguração, recomendava uma velocidade de circulação de 100 Kms/hora e anunciava a distribuição de um folheto com informações básicas de como conduzir em AE, como sejam a proibição de parar na faixa de rodagem, que se devia circular pela faixa da direita, deixando a faixa da esquerda só para ultrapassagens, alertas para não inverter o sentido da marcha, etc.

Para a história da AE ficou também, embora involuntariamente, Carlos Martins, de 48 anos, empregado de comércio, que conduzia uma motocicleta (era permitida a sua circulação) e que chocou com um marco, junto a Sacavém. Projectado, embateu com a cabeça e recolheu ao Hospital de São José. Ficou registado como o primeiro acidente da AE do Norte.

Fontes: Primeiro de Janeiro e Diário de Lisboa, de Maio de 1961.


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