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Condeixa: Aires Martinho festejou 100 anos de “uma vida de trabalho”

20 de Abril 2024

O ar puro e o verde da paisagem do lugar onde sempre viveu, uma vida de trabalho e saúde. Podem muito bem ter sido estes os condimentos que conduziram Aires Fernandes Martinho (para já) até aos 100 anos, festejados a preceito no passado domingo.

É na eira junto à casa onde vive, sozinho, num ponto altaneiro da pequena aldeia da Bendafé, agora integrada na União das Freguesias de Vila Seca e Bendafé, que o TERRAS DE SICÓ o encontra numa tarde soalheira desta Primavera quente. Queríamos perceber como e em que estado se chega até tão avançada idade. Pela aparência e boa mobilidade ninguém dirá que o ti’ Aires já por cá anda há um século.

Nasceu na sua Bendafé de sempre a 14 de Abril de 1924. “Nunca daqui saí”, diz com satisfação. Conta que começou a trabalhar bem cedo. Aos 11 anos já ia a pé para Coimbra, a quase duas dezenas de quilómetros dali, para o emprego na outrora fábrica de produção de tecidos e malhas A Ideal. “Ganhava nove escudos [4,5 cêntimos] por semana, o que era muito pouco”. Decide mudar de trabalho e vai para a construção civil “dar serventia a pedreiros”. Por pouco tempo, pois aos 16 anos já trabalhava numa quinta agrícola, também em Coimbra, onde esteve sete anos e “cheguei a ser feitor”. Saiu de lá para a vida militar aos 21 anos. Estávamos em Janeiro de 1941. A tropa leva-lhe um ano e meio e quando sai inscreve-se para militar da Guarda Nacional Republicana. Consegue vaga, mas entretanto já tinha encontrado emprego numa loja de ferragens, igualmente na cidade do Mondego. É ali que estava o emprego de uma vida. “Ganhava mais na loja de ferragens do que na GNR e por ali fiquei durante 40 anos”, justifica.

Aos 25 anos, casa com Maria Eulália, têm cinco filhos, mas sofre o desgosto de uma vida ao perder cedo um deles.

Primeiro a pé, depois de bicicleta e, mais tarde, de motorizada, palmilha durante décadas o caminho entre Bendafé e Coimbra. “Andei de motorizada até aos 98 anos (!) e nunca dei um tostão de prejuízo ao seguro”, brinca.

“Nunca gozei férias”

Reforma-se aos 61 anos e meio, em 1985, mas “fiz mal, porque saí com uma reforma miserável”. “O meu último ordenado foi de 30.000 escudos [150 euros]”, revela.

Numa vida de trabalho, complementava a ocupação profissional com uma forte dedicação “à lavoura”. Produziu muito vinho e muito azeite, comercializou gado bovino, “nunca gozei férias”. “As minhas férias eram gozadas na agricultura, a cavar, a lavra, a sulfatar…”, detalha.

E assim continuou na reforma. Comprou mais propriedades e dedicou-se por inteiro a essa actividade, até que as forças lho permitiram.

Agora, aos 100 anos, Aires Martinho, dono de uma personalidade muito própria, contempla o tempo passado e orgulha-se de um trajecto de luta e esforço.

A pergunta sobre qual o segredo para tal longevidade fica sem resposta. O que sabe é que, felizmente, num século, os principais problemas de saúde se cingem a uma arritmia cardíaca “ainda novo” e umas artroses trazidas pelo desgaste dos anos.

No tempo da pandemia de covid-19, “nunca usei máscara”. Sem vizinhança por perto o risco era mais reduzido, mas nem mesmo quando se deslocava pela aldeia para tomar o imprescindível café da hora de almoço na associação recreativa, de que foi um dos obreiros, tal acontecia. “Dizia que me esqueci dela e pronto…”

De manhã, já não se levanta tão cedo (“à volta das 9…”), ainda faz a lide caseira, menos as refeições, que lhe são servidas pela Santa Casa da Misericórdia de Condeixa, e os dias são passados por ali, dentro de casa ou em volta dela, junto aos terrenos que lhe pertencem e que antes cultivava, porque “agora já não faço serviços esforçados”.

Vê televisão, sobretudo, “o programa do Fernando Mendes [Preço Certo]” e as notícias, e pelo que observa acha que “o mundo está pior, muito pior do que antigamente”.

“Isto está o diacho. Até o tempo [meteorológico] está contra. Já viu que nunca houve tanto vento como agora?”, pergunta retoricamente.

Tem quatro filhos vivos, sete netos e quatro bisnetos, com o quinto a caminho. É no “melhor sítio da Bendafé”, onde se sente bem, que estes o podem continuar a visitar.

O ar puro e tranquilo que por ali se respira são verdadeiros ‘esticadores de vida’. Como se comprova. Parabéns e muita saúde, ti’ Aires!

LUÍS CARLOS MELO

[NOTÍCIA DA EDIÇÃO IMPRESSA]


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