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Pombal: Luís Marques quer que jovens percebam importância do 25 de Abril || ENTREVISTA ||

4 de Fevereiro 2024

Luís Marques, natural da freguesia de Abiul, é o Comissário para as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, em Pombal. Em entrevista ao TERRAS DE SICÓ, o antigo jornalista aborda o caminho percorrido, salpicado pela luta antifascista, a importância da sensibilização dos jovens que não viveram a Revolução para os ideais de liberdade e o actual estado de crise do jornalismo em Portugal… e no mundo. Homem da comunicação, cronista do jornal Expresso e consultor no grupo Impresa, diz-se desencantado com a região de Sicó e alerta, ainda, para a forma como os agentes políticos olham para os territórios de baixa densidade, “completamente ao abandono”, e para a necessidade de se criarem estratégias de ordenamento da floresta.

TERRAS DE SICÓ (TS) – Foi convidado pela autarquia para ser o Comissário das Comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril em Pombal. Por que razão aceitou o convite?

LUÍS MARQUES (LM) – O meu envolvimento neste processo decorreu de um convite que me foi endereçado pelo presidente da Câmara já quase há três anos. Foi um convite que me apanhou desprevenido, mas que depois de ponderar acabei por aceitar por três motivos: primeiramente por acreditar que é um dever de cidadania. Considero o 25 de Abril uma data que marcou toda a nossa geração, a minha geração em particular, mas também as posteriores, a história do país e por ser uma data muito relevante em toda a História do último século. Depois por razões que têm a ver com a minha origem. Nasci em Pombal, tenho uma ligação muito forte com este território. E também por respeito à minha própria história pessoal: quando ocorreu o 25 de Abril eu estava a sair de um processo que me levou à prisão em 1972, e onde estive até Novembro desse ano. Por razões que têm a ver com o facto de ter sido novamente denunciado, acabei por entrar na clandestinidade, logo a seguir, em Novembro de 72, e que se manteve até Abril de 1974. Ou seja, tenho um passado de resistente ao fascismo e à ditadura e por, de alguma maneira, ter dado um pequeníssimo contributo à luta antifascista, e em respeito a esta parte da minha vida, e de outros camaradas, considerei que devia aceitar e contribuir com a minha experiência para fazer destas comemorações um acontecimento que marque a memória sobretudo das gerações que não viveram este período, porque as que viveram esta época sabem, mal ou bem, o que se passou. O mais relevante é que há gerações que não passaram por isso, ou que têm memórias muito distantes dessa experiência histórica, e é importante manter essa pressão para que os jovens percebam a importância de celebrar Abril e os ideais que estão na sua génese.

TS – Que marca quiseram dar às comemorações?

LM – A proposta que fiz à presidência e à vereação assentava em três princípios e uma condição. Começando pela condição, era que tivesse o máximo consenso político possível, ou seja, que não fossem objecto de qualquer polémica partidária, que não tivesse qualquer conotação partidária e que todos os partidos, dentro do possível, se revissem nestas comemorações. Reunimos com todos os partidos, partilhámos as nossas ideias, alguns deles deram, também, contributos, e isso foi muito relevante. Vamos tentar incorporar essas ideias nestas comemorações. Depois, no que diz respeito aos princípios, queria dar um foco muito grande à juventude, e neste sentido desenvolvemos um grande trabalho com as escolas: mobilizámos todos agrupamentos escolares do concelho de Pombal, e tivemos várias reuniões de forma a fazer das comemorações do 25 de Abril uma marca estruturante para todo o ano lectivo. Os outros dois pontos que achei muito relevantes como princípios foram o da descentralização das comemorações, no sentido de envolver tudo o que são organizações, instituições e associações da sociedade civil, e penso que foi conseguido, porque tivemos uma boa aceitação e recebemos muitos contributos. E depois queria também que houvesse uma grande deslocalização, no sentido em que estas comemorações não se concentrassem na cidade de Pombal, mas que fossem às freguesias. Pombal é um concelho muito grande, com realidades muitos distintas, desde a zona mais marítima, até à ruralidade serrana, e é preciso que um concelho que tem toda esta diversidade esteja unido nestas comemorações, daí termos mobilizado todos os presidentes de junta, com quem estamos em contacto permanente. Assim, muitos dos eventos vão andar pelas freguesias, como exposições, debates e espectáculos, precisamente para assegurar que estas comemorações são o mais participadas possível.

TS – É muito importante esta sensibilização dos jovens que não viveram o 25 de Abril de 1974…

LM – É fundamental. Cada geração vive o seu tempo, não vive o tempo dos outros, como é normal. A minha geração viveu um tempo marcado pela ditadura, pela opressão, pela luta pela liberdade e essas são as nossas referências mentais. As referências mentais das novas geração não são essas, até porque estas novas gerações consideram esses valores como adquiridos. O problema é que a história mostra que muitas vezes esses valores que pensamos que são adquiridos são postos em causa quando menos se espera. Assim, é preciso que estas novas gerações aprendam que esses valores e esses ideais podem ser objecto de contestação e até de anulação de forma muito inesperada e que precisam de estar preparados para lutar por eles.

TS – Que marca quiseram dar às comemorações?

LM – Queremos deixar uma marca de que vale a pena lutar por estes princípios. Esta geração está sentada nos ombros de gerações que lutaram por ideais, e não podem esquecer estes ideais que formaram a nossa sociedade, e que têm hoje direitos que gerações anteriores não tinham. É fundamental que o respeito por estes valores seja transmitido de geração em geração e é mesmo essa ideia que queremos transmitir.

TS – Foi preso político, viveu na clandestinidade… Onde estava no 25 de Abril de 1974?

LM – É uma história engraçada, que dava para escrever um livro. Na altura vivia na clandestinidade: no final de 1973 houve greves na Marinha Grande e em Leiria, que era onde vivia na altura, e fui destacado para acompanhar essas greves, uma vez que estava na militância política da extrema-esquerda. Nessa altura, estava num acampamento que foi descoberto pela polícia, fui perseguido a tiro e consegui fugir, andei pela Mata de Leiria, perto da Vieira de Leiria, e durante a noite de 24 de Abril de 1974 fui da Marinha Grande para Leiria, com o objectivo de apanhar o comboio das 6h00 para Lisboa. Sempre perseguido pela polícia, lá consegui escapar e quando cheguei à Barosa, fiquei escondido num cemitério. Perto das 6h00, quando cheguei à estação de comboio vi muita gente na rua, a falar de liberdade e de revolução, e pensei para mim: “mas está tudo doido? Há uma revolução e ninguém me diz nada. Ando a lutar pela revolução há tanto tempo e há uma revolução e eu não sei de nada!”. Nessa altura fiquei por Lisboa. Passei muito tempo sem vir a Pombal, ou vinha só para visitar os meus pais. Até 1976 foi um período de absorção total, altura em que abandonei por completo a vida política e me dediquei ao jornalismo.

Os dias difíceis do jornalismo

TS – É jornalista e cronista, foi administrador da RTP, esteve na SIC, a assegurar o cargo de director-geral e de director-executivo editorial do grupo Impresa, da qual a estação faz parte. É um homem ligada à Comunicação Social. Como vê o jornalismo de hoje face ao dos seus tempos?

LM – São realidades completamente distintas, aliás, é quase impossível descrever aos jovens jornalistas da actualidade o que era o jornalismo da altura. Quando comecei, e para dar um exemplo, a nossa agenda diária de acontecimentos tinha meia dúzia de eventos, e eramos nós, os jornalistas, que tínhamos de descobrir as notícias, que tínhamos de arranjar informação para encher as páginas dos jornais. Hoje em dia, e na última vez que fiz um levantamento dos acontecimentos do dia, a ‘agenda’ diária tinha mais de 1.500 entradas de eventos. O que quero dizer é que as redacções estão inundadas de informação, e o que aconteceu durante este percurso é que sociedade incorporou a necessidade de comunicar, e a necessidade de ter uma relação directa com os consumidores finais, que são os leitores, o cidadão comum, através dos jornais. Hoje não há nenhuma entidade, como câmaras, instituições, governo ou empresas, que não tenham um gabinete de comunicação, ou de imprensa, e isso mudou radicalmente. O jornalismo de hoje vive uma situação muito difícil, não só porque há muito mais concorrência do que havia na altura, mas também porque o modelo de negócio mudou radicalmente e porque a concorrência hoje já não se faz como antigamente, entre jornais, mas entre o jornalismo e outros meios de comunicação. E isso mudou toda a perspectiva que há sobre a nossa actividade.

TS – A questão das agendas face à procura da notícia, também acaba por retirar alguma da criatividade ao próprio jornalista…

LM – Claro que sim. Há aqui duas questões fundamentais: por um lado o negócio dos media está em crise, porque as fontes de receitas diminuíram substancialmente, os jornais vendem-se muito menos, a publicidade tem vindo a cair, as assinaturas não compensam, e isso faz com que, naturalmente, decaiam as empresas de media, e não é só em Portugal, é em praticamente todo o mundo. E depois, a tecnologia introduziu alteração radical nos modelos de negócio e na forma como se faz o jornalismo. O digital e a emergência da internet faz com que qualquer entidade possa colocar conteúdos online, assim como qualquer pessoa também possa aceder a esses conteúdos de forma gratuita. O jornalismo, hoje em dia, sofre uma pressão muito grande, seja pela falta de receitas, porque as receitas tradicionais diminuíram, e as novas receitas não acontecem, porque as pessoas incorporaram a ideia de que a internet é gratuita, e por outro lado temos redacções cada vez mais fragilizadas, também devido a esta falta de receitas, o que faz com que tenham menos jornalistas, menos recursos, e que se pague menos aos profissionais. Naturalmente que o jornalismo se ressente.

TS – Deve-se, portanto, a tudo isso esta crise no jornalismo?

LM – A actual crise que o jornalismo está a passar, porque já passou por outras crises, com outras origens, deve-se a causas tecnológicas. O digital mudou radicalmente os hábitos de consumo dos leitores. Antigamente as pessoas liam jornais porque compravam jornais, actualmente as pessoas vão à internet e lêem notícias em qualquer lado. O modelo mudou radicalmente, tal como acontece noutras áreas. A evolução muda a forma como vivemos e, neste caso em particular, a internet mudou radicalmente a forma como consumimos notícias e informação. Depois há outros factores, e pode parecer um bocadinho contraditório, mas hoje em dia consome-se mais jornalismo que no passado. Aqui, o desafio é transformar esta nova forma de jornalismo em dinheiro. No caso do Expresso, por exemplo, que vende 90.000 exemplares, o consumo no digital é de cinco milhões de leitores. No entanto, não conseguimos transformar estes milhões de acessos em dinheiro. Se estes leitores do digital pagassem apenas um euro, por exemplo, obviamente que o jornal não teria problemas financeiros. A luta que o jornalismo tem que travar é a de fazer perceber ao mercado, ao leitor, que este tipo de informação é tão importante que tem que ser pago.

TS – No que diz respeito à crise na comunicação social: O jornalismo está mal, mas os órgãos de comunicação social, por falta de dinheiro, também o estão e não se consegue bom jornalismo se não houver dinheiro para contratar jornalistas e estes terem condições para trabalhar… Que modelo de financiamento defende para a imprensa?

LM – Há muitas formas alternativas, penso que não haja nenhum modelo totalmente seguro ou eficaz, há vários modelos que estão a ser praticados noutros mercados e que são interessantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, há investimento privado, empresários, como aconteceu no ‘Washington Post’, que foi comprado pela Amazon, que investiu por achar relevante manter um jornal com aquele prestígio. Ou seja, estas entidades privadas fazem-no quase como um mecenato, numa manifestação de responsabilidade social. Em França, os accionistas privados do ‘Le Monde’ criaram uma fundação não lucrativa para manter o jornal. Penso que os jornais e o jornalismo vão depender muito de como a sociedade, e quando falo em sociedade, falo em leitores, instituições, empresários, se sensibilizar para a importância do jornalismo e para que este jornalismo se mantenha. Para mim, o caminho passa pelo mecenato, por isenções fiscais, e pelo estímulo à criação de fundações, ou associações sem fins lucrativos, que possam entrar no capital dos jornais, e que tenham uma componente de responsabilidade social.

TS – O Estado deve financiar o jornalismo?

LM – Não vejo que seja útil a entrada do Estado neste sector, mas o Estado, ainda assim, pode favorecer. Como? Com as tais isenções fiscais, com apoios ao consumidor, literacia, e até mesmo isentar os jornais de IVA, tornando-os mais baratos. No fundo, apoiar de forma mais indirecta: não sou adepto das ajudas directas. Aliás, o Estado poderia ter a capacidade de isentar fiscalmente os investidores que apoiem o jornalismo, abatendo esses valores no IRC, por exemplo, e desta forma, as empresas, em vez de investirem noutras áreas, poderiam investir no jornalismo. Não será o caminho mais fácil ou mais rápido, mas sem a consciencialização da sociedade, e de quem tem poder e dinheiro para poder ajudar a resolver este problema, não vamos lá.

TS – A Imprensa nacional tem um papel fundamental na sociedade, no entanto, a imprensa local e regional desenvolve um trabalho de proximidade junto das comunidades, que precisa de ser apoiado…

LM – Acho que os poderes locais, com as Câmaras, ou as associações de desenvolvimento local, podiam dar mais ajudas. Não quero com isto dizer que ‘ponham’ lá dinheiro, mas através de publicidade, por exemplo, apoiar estes pequenos meios que têm um papel de grande importância. No que diz respeito à grande imprensa nacional, acredito que o Estado deve estar o mais afastado possível, agora na imprensa regional, que faz um jornalismo de proximidade, que deve ser salvaguardado, as entidades públicas e semi-públicas devem ser mais activas, porque é fundamental que se mantenham estes jornais. E isso não é um desafio apenas dos proprietários dos jornais, é um desafio de toda a sociedade.

Mudar a forma como se olha para o interior

TS – Em que fase está da sua vida?

LM – Estou numa fase muito boa, no sentido em que continuo a estar ligados aos media, que é uma coisa que gosto e uma área muito querida para mim. Continuo ligado ao grupo Impresa, como consultor, continuo a escrever, como cronista, para o Expresso, tenho um podcast, na Rádio Renascença, com uns amigos, onde discutimos estas questões ligadas ao jornalismo. Escrevo e trabalho junto dos media e estou bastante ocupado, mais do que aquilo que estava à espera. No que toca ao campo pessoal, gosto de me dedicar à agricultura e à preservação da natureza, e do meu património. Gosto de produzir o meu azeite, de fazer alguns litros de vinho para consumo próprio, gosto de regressar à casa onde nasci e onde ainda vive a minha mãe…

TS – É natural da freguesia de Abiul, com ligações fortes ao território, como olha para esta região e de que forma é que pode ser potenciada?

LM – A minha experiência, pelo menos no que diz respeito à zona em que vivo, é de grande desencanto. Desencanto porque foi uma zona que foi muito afectada pelos incêndios de 2022, na verdade, o fogo consumiu uma parte das minhas propriedades, foi muito duro. Senti medo de que me ardesse tudo. E isso fez-me pensar um bocadinho no investimento que lá fiz, no gosto que tenho por aquela terra e percebi que não vale a pena: ciclicamente isto volta a acontecer, e sinto que não tem havido capacidade os agentes políticos para antecipar estes problemas, actuando sobre a propriedade, no ordenamento da floresta, actuando na fiscalização… Basta ver que os incêndios aconteceram em 2022, já passaram quase dois anos e não houve qualquer actuação. A floresta que lá estava é aquela que lá está, com regeneração selvagem. Abandonada por políticas públicas que não existem, pelo oportunismo de só se falar nestes temas quando existem situações de catástrofe, mas depois volta tudo ao mesmo e mais ninguém pensa no assunto. É um desencantamento ver esta zona mais interior completamente ao abandono.

TS – Nesse caso, acredita que a forma de potenciar a região passa por rever estas estratégias?

LM – É fundamental que se altere a forma como se olha para o interior. O problema está na baixa densidade populacional: não há votos. E se não há votos também não há interesse político. Se a região tivesse votos suficientes para os políticos perceberem que têm que olhar para o interior de outra forma seria tudo muito diferente, mas não há. E estou certo de que haverá cada vez menos, portanto, se não tem peso político, também não tem interesse político. Ninguém se preocupa. Se em 2022 o território não estava bem, agora está muito pior. É chocante, porque podiam-se ter aproveitado os incêndios, porque a tragédia também pode ser uma oportunidade, para ordenar, para falar com os proprietários, para repensar o interior, para redefinir estratégias, pensar a propriedade, criar regras para as novas plantações, e nada disso foi feito. O que vai acontecer, é que daqui a uns anos volta a arder tudo outra vez, com uma particularidade mais grave: é que na zona onde havia pinhal, está a ser substituída pelo eucalipto. A floresta do futuro, pelo menos na minha zona, não vai ser de pinheiro, vai ser de eucalipto, e como regeneração natural do eucalipto é mais rápida, sendo mais rápida e mais resistente, o que vai prevalecer será o eucalipto e não o pinheiro. Como é que é possível, andar-se sempre a criticar o eucalipto e depois permitir esta sobreposição?

ANA LAURA DUARTE

[ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO IMPRESSA]


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