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VIDAS CONTADAS || António Rocha Quaresma: o menino reguila que se fez farmacêutico reconhecido

3 de Dezembro 2023

Rosto incontornável da Farmácia Paiva, dirigente associativo, presidente da Assembleia Municipal de Pombal por dois mandatos, benemérito discreto e amante do desporto, António Rocha Quaresma é uma das figuras mais conhecidas de Pombal. De sorriso no rosto e sempre pronto para dois dedos de conversa, Toninho, como é carinhosamente apelidado, não perde uma oportunidade para contar uma história, relembrar uma peripécia de infância ou roubar uma gargalhada.

Por falar em infância, foi na Farmácia Paiva que passou parte da sua meninice. Ali, no Largo do Cardal e no Jardim. Juntamente com os amigos, gostava de jogar à bola, “descalço… a maior parte dos meus amigos não tinha sapatos e por isso eu descalçava-me para brincar com eles”, conta. Nunca conheceu o pai, que “morreu quando tinha nove meses: marcou-me muito”, admite, com a “alegria de ainda hoje falar com pessoas que tiveram a oportunidade de o conhecer e que me dizem que era um grande homem: é um misto de tristeza e de alegria”. Angústia por “não ter tido a oportunidade de conviver com ele, mas com muito orgulho, por saber que deixou uma marca indelével em quem o conheceu”.

Toninho, o menino reguila

Foi na figura do avô que encontrou o exemplo a seguir. Farmacêutico de respeito, assumiu o papel de ‘capitão’, já a mãe era a ‘primeiro sargento’, aquela que “fazia garantir que as regras do ‘capitão’ eram milimetricamente cumpridas”, isto porque o menino Toninho, leia-se Rocha Quaresma, “era muito reguila: andava sempre no jardim e brincava com tudo e com todos. Às vezes, a minha mãe chamava a nossa funcionária para dar-me banho à mangueirada antes de entrar em casa de tão sujo que estava”, graceja.

“A brincadeira nunca me era negada, mas para isso tinha de cumprir as minhas tarefas”, supervisionadas pelo avô e pela mãe, que depois de viuvar “vestiu a bata preta e tornou-se na primeira ajudante de farmácia do País”. Ainda que com o ar afável que lhe é conhecido, Rocha Quaresma endireita-se na cadeira: “estas duas figuras moldaram-me à imagem do que sou hoje. A minha mãe marcou-me pela maneira de estar na vida e o meu avô pela maneira de estar na sociedade e na profissão. O que me ensinaram é aquilo que ainda hoje sou”, assume, admitindo que ao vir de uma família de farmacêuticos só podia… ser também farmacêutico.

Conhecedor da história pombalense

“Recordo-me bem de quando entravam certos clientes na farmácia, que o meu avô me mandava ‘ir lá para dentro’”, Toninho Quaresma ia… “mas depois vinha a rastejar e escondia-me para ouvir as conversas”, confessa. Talvez por isso deva ser “das pessoas que mais sabe sobre a história de Pombal, na farmácia passava muita gente, ouviam-se muitas coisas…”, segreda.

Descontraído por natureza, Rocha Quaresma chumbou nos exames do 5.º ano e a mãe mandou-o para um colégio interno em Coimbra, continuou o percurso escolar com outras “peripécias” e depois de repetir o sétimo ano “algumas vezes”, licenciou-se em Farmácia, pela Universidade de Coimbra. Nessa altura fez também parte da primeira equipa de râguebi da Associação Académica de Coimbra, “há 60 anos”. Uma modalidade que ainda o apaixona, trouxe o râguebi para Pombal, “e só tenho pena que o projecto do Rugby Clube de Pombal não tenha tido continuidade”.

Foi um dos fundadores da Associação Nacional de Farmácias, chegando a ser delegado distrital de Leiria. Por outro lado, o farmacêutico tem o seu nome ligado a diversas instituições e colectividades de Pombal, como é o caso da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, Filarmónica Artística Pombalense, Cercipom, Santa Casa da Misericórdia e Sporting Clube de Pombal, para além de ter criado o Rugby Clube de Pombal. Foi, ainda, presidente da Assembleia Municipal de Pombal durante dois mandatos autárquicos.

Falando nos Bombeiros Voluntários de Pombal, há a dizer que Rocha Quaresma nunca foi bombeiro, mas chegou a “conduzir ambulâncias, a sair para os fogos” e ajudar como podia. “Uma vez a sirene tocou e eu fui a correr para o quartel, quando lá cheguei saltei para o ‘Salvador’ e fui com os bombeiros. Chegados ao local do fogo, agarrei num capacete que estava em cima do banco e meti-o na cabeça”, só mais tarde se apercebeu que “era o capacete do comandante”, graceja enquanto relembra outros episódios igualmente caricatos.

Benemérito de coração

Mas afinal quem é o ‘Salvador’? “Um carro lindo, descapotável, que pertence à corporação dos Bombeiros e que na altura era usada habitualmente pelo comandante nos teatros de operações”. O velhinho Ford V8 “ardeu num incêndio, ficou esquecido anos a fio, até que “em conversa resolvemos restaura-lo”. Toninho Rocha Quaresma custeou o restauro da viatura num “acto de puro saudosismo”. Gosta de ajudar, “mas gosto de fazê-lo à minha maneira: quando quero ajudar alguém, ou alguma instituição, não preciso de me gabar”. Benemérito de coração, discreto de profissão.

Aos 76 anos, continua pronto para a brincadeira. Acredita que foi um ‘cowboy’, pronto para a ‘cowboyada’, mas com um objectivo bem definido, o de “ajudar os outros”. Por isso, nunca deixou ninguém “sair da sua farmácia sem um medicamento que precisasse, mesmo que não pudesse pagá-lo” no momento. “Nunca ninguém morreu por minha culpa. É um princípio deontológico que assumi e um lema de vida que tenho. Mesmo quando não há dinheiro resolve-se o problema”, garante.

Largamente reconhecido pelos pombalenses, Rocha Quaresma preparou, ainda, a Associação Filarmónica Artística Pombalense “para aquilo que é hoje, uma instituição de mérito inegável”, adquiriu a primeira viatura para os utentes da Cercipom… e inaugurou a Perfumaria Rocha “há 41 anos”. Sempre ligado à área da farmacêutica, o responsável trouxe para Pombal um “um conceito completamente diferente”, direccionado, na altura, para o público feminino, dedicado aos cuidados de beleza, cosmética e perfumaria: “é a menina dos meus olhos”, logo a seguir à esposa, com quem começou a namorar aos 16 anos e com quem é casado há 51 anos, aos dois filhos, também eles ligados à farmacêutica, e aos quatro netos.

Com uma vida repleta de histórias para contar e mantendo uma permanente intervenção na vida cívica da comunidade, António Rocha Quaresma, foi recentemente agraciado pelo Município de Pombal com uma medalha de mérito municipal, grau ouro.

De trato fácil, sorriso afável e boa disposição, inegável é também o espírito de cidadania, companheirismo e a empatia que emana. Culto, sábio e “defensor da verdade”, é amante dos livros e da literatura, da música e da boa gastronomia. “Durante o confinamento li mais de 200 livros”, revela. A nós parece-nos que devia, também, dedicar-se à escrita, é que, como o próprio Toninho Rocha Quaresma afirma: “a minha vida dava um livro”!

ANA LAURA DUARTE


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