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NATÉRCIA MARTINS

Hóquei

1 de Setembro 2023

O meu pai era professor. Mas professor de quê? De tudo o que se relacionasse com Ciências: Matemática, Geografia e, principalmente, de Desenho. Desenho geométrico. O que se fazia com tinta-da-china e tira-linhas. Ah, pois é esse mesmo! Depois de todo feito caía uma pinga de tinta e lá se ia o trabalho todo. Ele via. À vista desarmada o erro de um milímetro.

Era um estudioso. Passava horas a estudar o que iria explicar no dia seguinte. Para isso rodeava-se de livros. Era um assíduo freguês de um alfarrabista que havia em Coimbra. Hábito que ficou de quando era estudante na velha Universidade.

Havia um que se destacava por ser muito velho e que, de certa forma, acompanhou a meninice minha e do meu irmão. Chamávamos-lhe o livro do “tuqui”.

Quando faleceu e fomos ao escritório cheio de livros a exclamação foi unânime: O livro do “tuqui”. Tão velho que as páginas quase se desfaziam entre os nossos dedos. Tinha o desenho de uns cartuchos pintados na capa. Também era caçador no tempo em que havia caça, daí a palavra “tuqui”. Não sabíamos dizer a palavra correcta, tão pequenos nós eramos. No entanto, ainda hoje lhe chamamos da mesma forma.

Foi ali que vi como se jogava hóquei em patins. O livro tinha, entre outras informações, que o primeiro relato histórico nos remete para o ano de 1873. Também li que D. Maria Pia terá apresentado os primeiros patins em Mafra e que andava pelos corredores do palácio de patins. Divertia-se? Pois, claro!

A minha avó Amélia, era uma assídua ouvinte do relato de hóquei quando Portugal jogava a nível europeu. Um rádio a pilhas, ou melhor, com uma pilha grande que custava a quantia de noventa escudos. De salientar que um homem ganhava cerca de sete escudos e cinquenta centavos a cavar de sol a sol. Durante o campeonato não se ouvia música pois a pilha tinha de estar com carga para o relato. Portugal tinha de ganhar. Ela chegava ao ponto de recitar uma pequena oração para que os nossos jogadores ganhassem. Quando os adversários eram espanhóis tinham mesmo de ganhar. Se a oração fazia efeito ou não, não sei. Mas ela ficava muito feliz e nós, por arrasto, também.

Apenas o relato. Nunca viu um jogo de hóquei. Mas porquê o hóquei. Vá se lá saber porque gostava tanto deste jogo.

Fiquei curiosa e consultando o velho livro li que os primeiros patins estavam colocados nuns sapatos com sola e duas rodinhas ali pregadas. Conta, ainda que foi num baile e do nada apareceu um sujeito deslizando a tocar violino. Curiosidade apenas. O livro diz que o homem atravessou o baile colidindo com um enorme espelho que se desfez. Parece que o homem era especialista em mecânico e habilidoso carteirista. Tão habilidoso que removeu as lâminas de uns patins no gelo e colocou as rodinhas. Não tinham travões e só andavam em linha recta. Daí o espelho que não se desviou da rota do patinador.

Não tinham equipamento nem protecções na cabeça. Umas joelheiras feitas de sola e mais nada. Os stiques seriam um pau curvo na ponta. Como ela imaginava o hóquei. Devia haver uma baliza que ela imaginava grande, como tinha visto uma de futebol, na vila. Nem pensava que os guarda-redes ficam agachados a impedir a bola marcar golo.

Passaram cerca de cem anos para se aperfeiçoarem e hoje é um desporto muito conceituado.

Pois bem. Como o livro era bem antigo não dizia tudo o que eu queria saber. Há coisas onde sou curiosa e gosto de saber.  Fui consultar o meu grande amigo Google. Ele contou-me que o primeiro ringue foi construído em Lourenço Marques (hoje Maputo) em 1905. Os ingleses também foram responsáveis pela realização do primeiro jogo entre equipas e em recintos públicos. Os ingleses foram ainda responsáveis e influenciadores deste desporto em Portugal.

Como não quero apagar o passado, resolvi hoje recordar, entre outras coisas, o gosto da minha avó Amélia pelo hóquei em patins.

Se ela cá viesse agora seria um gosto ver como este jogo evoluiu. Não viveu no tempo da televisão, mas garanto que não perderia um jogo.


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