20 de Junho de 2024 | Quinzenário Regional | Diário Online
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NATÉRCIA MARTINS

Caramba!

16 de Junho 2023

O meu pai era caçador. Saía de manhã, não muito cedo, para o mato.

Calçava botas altas e calças velhas, assim como um casaco coçado, velho e fora de uso.

À cinta, além da cartucheira, a merenda: pão, presunto e chouriço. Para ele e para a cadela que naqueles dias tinha o privilégio de comer igual ao dono.

Para matar a sede, encontrava pelo caminho sumarentas e doces laranjas, bagos de uva esquecidos nas videiras depois da vindima, figos, enfim, qualquer fruta que encontrasse.

Enquanto mais novo ia sozinho com a cadela. Mais tarde, foi o meu irmão que se juntou a eles e caçava também.

Nunca caçavam muito. Duas ou três perdizes, um coelhito ou mesmo uma lebre, penduradas à cintura constituíam um belo galhardete.

Havia muita caça por aqueles lados. O pinhal cuidado e o mato roçado permitiam às espécies nativas procriarem e desenvolverem-se, sem poluição ou o inferno dos incêndios.

Recuando no tempo lembro-me de em pequena acompanhar a minha mãe ou os empregados da casa, na época, a um pinhal que tínhamos no Casal Marques.

Sempre gostei da vida do campo. Aí havia uma represa de água limpinha, um velho moinho que já não moía e um poço pequeno a que chamavam de “chabouco” onde tirávamos água à cegonha ou picota (é o mesmo).

Havia, ainda, umas colmeias do vizinho onde íamos espreitar a azáfama das abelhas em volta da urze e que por vezes nos ferroavam pedras enormes que separavam as terras e a ribeira cujo leito percorríamos descalços saltando de pedra em pedra.

Mais ainda. Se íamos para o pinhal à procura de pinhas e pinhões encontrávamos os ninhos das perdizes feitos de musgo e ervas secas, no chão, com ovinhos pequeninos salpicados de pintas castanhas e muitas vezes, também os próprios perdigotos em fila atrás da mãe perdiz. Confundiam-se com a paisagem, com o mato, tojos e carqueja. Nessa época, ainda, com o meu irmão por companhia, saíam de manhã, com a indumentária e atavio do costume que iam ficando de uns anos para os outros. A merenda para eles e para a cadela, que era também a mesma, compunha-se, como sempre, de pão, presunto e chouriço, para os três. Aí as coisas mudaram um pouco.

Traziam perdizes, um coelho, cogumelos. Depois de uma boa meia hora, sentavam-se à sombra das oliveiras, na conversa e talvez uma boa soneca.

E era aí, perto das oliveiras, que se encontravam os cogumelos, grandes, castanhos a que se dá o nome popular de gasalhos.

Chegados a casa a minha mãe cozinhava as perdizes, ainda frescas, pois não eramos adeptos do ditado popular “come-se a perdiz, com a mão no nariz”.

A receita culinária inventou-a ela mesma: púcara de barro, presunto da salgadeira, azeite do lagar, vinho tinto e o lume fraquinho das brasas retiradas do fogão de lenha. Fervia lenta, lentamente, durante horas até apurar.

Entretanto, o meu irmão foi chamado para a tropa. Portanto, o meu pai voltou a caçar sozinho.

Um domingo de manhã a minha mãe declarou:

– Ela vai contigo!

Era comigo. Pronto. Lá estava eu metida em trabalhos.

Agora o meu pai passava a caçar com dois cães: eu e a cadela!

Rumávamos para outros sítios mais fáceis de caminhar. Menos mato e menos pedras. E foi assim que descobrimos a casa onde moravam e moram ainda, as Carambas. Vida simples aquela. Não tinham nada, mas também não precisavam. Não trabalhavam. Não havia homens, só mulheres, excepto um muito velho, como velhas eram todas as Carambas. O velho morreu para lá dos cem anos e a mulher penso que já os fez, também.

Sentadas à porta de casa, ao sol, quando nos viam passar, diziam:

– Caramba, somos muito velhas, caramba! E os “meninos” ainda tão novos….

Por tudo e por nada a palavra escolhida era: caramba! Daí a alcunha: Caramba.

Como subsistência utilizavam os produtos da terra que na sua maioria era espontânea, tal como: acelgas, leitugas, almeirões e couves. A broa, essa sim, cozida no forno artesanal, herdado de uns outros Carambas mais velhos.

Como a roupa durava anos a fio, também se comprava poucas vezes. E era da venda do porco criado na pocilga que vinha algum rendimento. Conta-se que, um dia, o velho Caramba levou o porco à feira com a finalidade de o vender.

Preso por uma pata com um baracito sujo, lá foram os dois, a pé.

Chegados à feira, esperou pacientemente por um possível comprador.

Apareceu o Maia, que era homem de negócios, tão esperto como vigarista.

Cajado na mão, boina na cabeça, acercou-se e perguntou:

– O seu porco come de tudo?

– Come, pois! Come de tudo.

– Ai, não come, não! Disse a sorrir para ver até onde o velho Caramba conseguia fazer o negócio.

– Come, pois! Voltou a repetir.

– Olhe lá, o porco come pedras?

– Ah! Isso não!

– É isso. Não come de tudo! Assim não quero!

– Caramba! Só porque o porco não come de tudo, lá se foi o negócio! CARAMBA!

 


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