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Dário Rodrigues: o menino de Ansião que se fez físico oncológico nos Estados Unidos

23 de Abril 2023

Quando entrou na Biblioteca Municipal de Ansião a funcionária lançou-lhe um sorriso rasgado: por ali, Dário Rodrigues não é uma figura desconhecida e mesmo que por agora faça vida a um oceano de distância o seu ar simpático e descontraído não foi esquecido.

Nasceu e cresceu em Cavadas, no concelho de Ansião, mas foi nos Estados Unidos da América (EUA) que se tornou um dos poucos físicos oncológicos térmicos do Mundo. Conversador nato e de trato fácil, o jovem ansianense de 38 anos, conta que começou a trabalhar aos 12, “nas empresas do meu pai: atendia clientes, dava uma ajuda no armazém ou nos escritórios, e às vezes atrapalhava mais do que ajudava”, brinca. “Não era um trabalho oficial, era uma forma de ajudar os meus pais, e de começar a sentir um certo sentido de responsabilidade”, uma experiência “que me enriqueceu muito enquanto pessoa”. E quando fala da família nota-se a “ligação forte e muito próxima, de grande cumplicidade”, afinal “se não fossem eles, não estaria onde estou hoje”. E admite que “a educação que recebi é o grande pilar do meu percurso, aliás, a minha família é o meu grande pilar”, reforça.

“Queria ser cientista”

Em Ansião fez um percurso escolar “dentro da normalidade, mas sempre com bons resultados”, e quando chegou a hora de definir um percurso académico, a nota de 19.9 no exame nacional de matemática facilitou-lhe a entrada no curso universitário que desejava: Engenharia Biomédica, na Universidade Nova de Lisboa. “Apesar da minha família estar ligada à área da construção e do comércio de materiais, sempre disse que queria ser cientista”, assume, enquanto explica que “foi a melhor escolha que poderia ter feito”.

Ainda que fosse um curso totalmente novo, que iria abrir vagas pela primeira vez esse ano, Dário Rodrigues percebeu de imediato que o seu futuro passava por ali. “Como era tudo novo, foi difícil encontrar uma sintonia entre os professores e alunos, e colocar em prática os objectivos da licenciatura: era tudo novo e precisávamos de um apoio e de uma motivação extra, por isso resolvemos criar um conselho pedagógico, que permitia fazer esta ligação e promover o diálogo entre alunos e professores de forma a encontrar um caminho frutífero”, integrou esse organismo “desde o primeiro ano até ao final do curso”. Mais tarde, e com o objectivo de criar “ligações entre os estudantes e o mundo empresarial, que nos viria a contratar no futuro, partimos para a criação do Núcleo de Biomédica”, uma iniciativa que “acabou por ser replicada por outras universidades”, revela satisfeito.

Fome de conhecimento

Terminada a licenciatura, o ansianense percebeu que queria continuar a alimentar a sua fome de conhecimento, e daí partiu para um mestrado, que o fez estar “deitado durante cinco horas consecutivas numa espécie de almofada que estava a desenvolver”, e que tinha como objectivo estudar a forma como a “temperatura corporal e o suor actua na formação de úlceras de pressão, por exemplo”. Mais uma etapa terminada com sucesso e mais um desafio pela frente: “lancei-me de cabeça para o doutoramento”, na altura já sabia “relativamente bem com o que queria trabalhar”, mas como nem tudo são facilidades, pelo caminho encontrou alguns constrangimentos: “em Portugal era muito difícil conseguir realizar os estudos e os ensais que pretendia fazer, e também não conseguia obter a orientação académica de que precisava”, lamenta.

Aventura americana

E é neste momento que se inicia a grande aventura americana: Dário Rodrigues, exigente por natureza e perspicaz o suficiente para perceber que o percurso teria de sofrer algumas alterações para chegar ao destino final, começou a pesquisar “universidades e laboratórios capazes de me aceitar como doutorando”, encontrou algumas opções europeias, mas eram os EUA que lhe ‘piscavam o olho’.

Encetados alguns contactos, marcadas algumas visitas a laboratórios e com uma grande vontade de aprender mais, Dário Rodrigues comprou um bilhete de avião para a América, pegou na mochila e lançou-se ao desafio. “Inicialmente a ideia era passar lá 18 dias, assistir a uma grande conferência na Florida, estabelecer alguns contactos informais e conhecer alguns laboratórios”. Passou pela Carolina do Norte, foi a Boston, esteve no Texas, e em pouco mais de duas semanas realizou nove voos internos pelos EUA, dormiu em quatros de motel à beira da estrada e questionou-se várias vezes: “mas afinal o que é que eu estou aqui a fazer?”. A resposta viria mais tarde, quando foi convidado a dar seguimento à sua tese de doutoramento na Duke University, na Carolina do Norte, mudou de país e especializou-se em “técnicas de terapia térmica, também conhecidas como hipertermias, um potente potencializador da quimioterapia e da radioterapia”.

Terapias térmicas

Durante a aventura doutoral mudou quatro vezes o rumo dos seus estudos, e o percurso “que podia ter sido feito em cerca de quatro anos, foi feito em seis”, mas nada que o faça olhar para trás ou de que se arrependa. Entre altos e baixos, algumas dificuldades, “porque não é nada fácil viver nos Estados Unidos”, Dário Rodrigues regressou a Ansião para materializar a tese de doutoramento, e foi ali, na Biblioteca Municipal de Ansião que passou grande parte do seu tempo, em frente a um computador, rodeado de números, equações e muita informação para escrever. Nos tempos livres decidiu experimentar a Ioga… apaixonou-se pela instrutora, voltou para os EUA, namorou à distância durante um ano e meio, casou e actualmente vivem em Baltimore, no estado de Maryland, onde é Professor de Física Oncológica Térmica na Universidade de Maryland e foi recentemente eleito Conselheiro de Engenharia/Física da Society for Thermal Medicine.

Dário Rodrigues é um dos poucos físicos oncológicos térmicos dos EUA, e do mundo, onde a sua especialidade é tratar cancros através de uma tecnologia que emite “calor concentrado gerado por ondas de rádio”. Como físico, o ansianense realiza tratamentos “coadjuvantes de hipertermia de tumores pélvicos, abdominais e superficiais” e é responsável “pelo planeamento do tratamento, dosimetria térmica e garantia de qualidade do equipamento clínico de hipertermia”.

Pesquisa e desenvolvimento

Continua a fazer pesquisa na área do “desenvolvimento de aplicadores de radiofrequência, aprimorados para aplicação de calor ao tecido, sensores não invasivos para rastrear mudanças de temperatura em profundidade e novas estratégias de planeamento de tratamento para melhorar a administração de dose térmica”. Dário Rodrigues explica que “estas pesquisas são realizada com uma combinação de modelagem teórica, desenvolvimento de engenharia e avaliação de desempenho de equipamentos com pacientes ‘fantasma’, chamados de fantomas, animais e humanos”, em que “um dos resultados mais proeminentes foi um sensor não invasivo capaz de monitorar com segurança a temperatura cerebral durante cirurgias prolongadas”.

Actualmente o jovem encontra-se a desenvolver um “dispositivo de hipertermia que permite tratar tumores cerebrais, um alvo difícil de atingir devido à presença do crânio que reflecte as ondas de rádio”. Para superar a estrutura desafiadora da cabeça humana, o professor projectou um dispositivo “de 72 antenas que é capaz de atingir tumores cerebrais profundos”. Temperatura é uma das palavras mais usadas pelo jovem ansianense, que explica “que as tecnologias que desenvolvemos são utilizadas como métodos que permitem potenciar os resultados dos tratamentos com quimioterapia e da radioterapia”.

Sobre o futuro, Dário Rodrigues assume que “quer envelhecer em Portugal”, mas “por agora ainda há um caminho muito longo a percorrer”. As coordenadas vão-se definindo ao longo da viagem.

ANA LAURA DUARTE


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