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Startup de Pombal vai pagar a proprietários para cuidarem das florestas

19 de Março 2023

Antes de explicar quem são Rui Lopes, Sérgio Lorga, Pedro Cipriano e Rui Maia, quem é a CO2OFFSET, ou dizer que esta startup conseguiu que um investidor lhe ‘oferecesse’ 1,5 milhões de euros para arrancar com um projecto que pretende “unir a natureza com as empresas numa relação equilibrada e valiosa onde se garante a sustentabilidade da humanidade”, com uma ideia que as “florestas são um santuário”, temos de recuar até ao malogrado ano de 2017, quando o centro do país foi assolado por um “fenómeno inédito”: os incêndios que provocaram um rasto de destruição e a morte de dezenas de pessoas.

Por essa altura, Rui Lopes, “pombalense de gema”, estava a desenvolver um projecto de inovação tecnológica, que passava pela criação de uma plataforma digital automatizada para ajudar pequenos agricultores, fazendo uso do satélite Sentinel-2 lançado no âmbito do programa europeu Copernicus. No entanto, “aconteceram os incêndios e foi aí que começámos a olhar de outra forma para as florestas”.

Queria aliar o conhecimento em satélites e análise de dados que adquiriu ao longo dos anos com a prevenção de incêndios e responder a uma questão que apesar de parecer ‘simples’ é bastante complexa: “como é que mantemos toda a população segura?”. A pergunta levou-o a desenvolver “uma ferramenta de quantificação de biomassa combustível na floresta”. E isto serve para quê? “Para conseguir perceber as intervenções necessárias, por exemplo, nas faixas de rodagem dos carros, ou para conseguir priorizar as intervenções de limpeza”, explica.

A ideia estava lá, mas era necessário colocá-la na prática. O quarteto conheceu-se num programa desenvolvido pela Associação Empresarial da Região de Leiria (NERLEI) e pela Startup Leiria, e resolveu avançar com a criação de um projecto que posteriormente se materializou na CO2OFFSET, uma startup que pretende “pagar aos proprietários florestais para manter a floresta limpa”, e assim, evitar “catástrofes como aquelas a que temos assistido nos últimos anos”.

Criaram parcerias com grandes empresas nacionais, e foi aí que perceberam que “mesmo essas empresas têm dificuldade em arranjar fundos para gerir as suas florestas”. Nesse caso, “se empresas maiores têm estes problemas, claro que as pequenas empresas e os pequenos proprietários não conseguem mesmo obter fundos para isso”. No entanto, “temos de ter uma visão, relativamente simples, de que quem faz uma boa gestão da floresta deve ser recompensado por isso, porque está a fazer vários favores à humanidade”: não só na prevenção de incêndios como nas emissões de dióxido de carbono.

O caminho passa por aí, pela “boa gestão florestal”, que não tem acontecido, “uma vez que os pequenos proprietários não têm forma de gerir a sua floresta devido a vários factores”, e um deles passa mesmo por “terem apenas despesas na limpeza dos terrenos mas não conseguem obter qualquer rendimento com esse processo, o que acaba por desmotivar”.

Outra questão que se levantou para os fundadores do projecto foi precisamente “como é que vamos fazer chegar fundos aos pequenos proprietários, como é que conseguimos dar ferramentas aliciantes para que possam gerir as suas florestas de forma sustentável”. A resposta está no chamado “Mercado Carbónico, criado pela ONU, logo a seguir a ter assinado o Protocolo de Quioto”.

Mercado Carbónico

No fundo este Mercado Carbónico é “uma ferramenta financeira que permite que empresas que façam emissões de CO2 e que queiram fazer o seu offset, que é como quem diz, a conversão, porque têm preocupações ambientais, possam gerir uma floresta de maneira sustentável, ou pagar a alguém para gerir a floresta”. Muito complicado? Nada disso, “as empresas compram créditos carbónicos e os proprietários recebem esse dinheiro para fazer a gestão florestal”, numa “relação de simbiose”, em que a CO2OFFSET “acaba por fazer a ligação entre as empresas e os produtores”. Ou seja, “vendemos créditos carbónicos às empresas que queiram fazer esse offset e alocamos os pagamentos nos pequenos produtores, para que estes possam fazer a sua gestão florestal”. No fundo, “somos intermediários”, explicam os fundadores.

E garantias? “Às empresas que compram créditos carbónicos, damos a garantia de que esses fundos são realmente aplicados na floresta”, com um “trabalho de verificação”, feito através de tecnologias inovadoras, e “da nossa metodologia científica, aliada à verificação da veracidade no terreno através de passagem dos satélites”, que permitem ao comprador aceder a uma plataforma onde está disponível “informação detalhada”. Tudo de “forma muito transparente”, e essa é mesmo a base do projecto: “queremos transparência máxima para as empresas e para os proprietários, porque sentimos que tem havido muita falta de transparência nestes projectos e daí que não se invista tanto nestas áreas”, lamenta.

Quanto aos proprietários, “verificamos se as intervenções estão a ser devidamente realizadas na floresta, caso se verifique que não estão a ser realizadas também não executamos os pagamentos aos proprietários”.

Desta forma, “criamos uma sinergia de confiança em que as empresas recebem a garantia de que os proprietários estão a cumprir a sua parte, e os proprietários também recebem uma garantia financeira para que a gestão florestal possa ser efectuada sem prejuízos e com um ‘extra’ para que possam tirar algum lucro”, admite.

Investimento avultado

Rui Lopes adianta que o projecto tem vindo a ser pensado “há já algum tempo”, e depois de atravessar todo o processo de desenvolvimento da ideia e da criação do plano de negócios, vai arrancar a todo o gás… ou não tivessem conseguido um investidor que “gostou muito do projecto” e até lhes “ofereceu um bocadinho mais do que estávamos à espera, porque consideraram que era importante investir mais para conseguirmos acelerar o processo”. O contrato foi assinado em Outubro de 2022, mas só agora está a arrancar, depois de concluir todos os processos burocráticos com sucesso. Afinal, “estamos a falar de 1.5 milhões de euros”, admite o responsável enquanto explica que “a nível nacional nunca houve um investimento tão avultado numa fase tão precoce do negócio”, o chamado pre-seed, o que reforça o potencial deste projecto.

Para já, a CO2OFFSET conta com 12 especialistas em diversas áreas, que vão desde o Direito à Engenharia Florestal, passando por matemáticos, físicos, ou pela área da comunicação, “quadro técnicos altamente qualificados”. Pessoas que “perceberam a potencialidade do projecto e que perceberam a nossa ambição, mas que acima de tudo sabem que podemos fazer a diferença no Mundo e trazer a sustentabilidade para o modelo financeiro das empresas, que é a única forma de real de levar os problemas ambientais a sério”. Afinal, “ as empresas começam agora a perceber que a sustentabilidade também é um factor económico”

Passo a passo a ideia transformou-se num projecto real, que “apesar de não termos a ambição de nos transformarmos num ‘unicórnio’, queremos ser globais”: isto porque “temos a noção do que estamos a fazer aqui pode ser feito em qualquer parte do Mundo”.

A equipa liderada por Rui Lopes, Sérgio Lorga, Pedro Cipriano e Rui Maia está a preparar “várias formas para que as pessoas se registem na nossa plataforma” e a desenvolver “uma aplicação capaz de facilitar a vida aos proprietários”, revela. Tudo a pensar “nas gerações futuras”.

ANA LAURA DUARTE

[NOTÍCIA DA EDIÇÃO IMPRESSA]


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