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Carlos Luís Tavares, o comandante que nasceu bombeiro e se apaixonou pela protecção civil

22 de Janeiro 2023

De uma família de bombeiros à “família” dos bombeiros e da protecção civil. Resumido numa frase, este foi o trajecto do sourense Carlos Luís Tavares, que depois de quase uma década à frente do Comando Distrital de Operações de Socorro de Coimbra, assumiu no início deste mês as funções de comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil da Região de Coimbra.

“Criado na Rua das Pedreiras, o que muito me orgulha”, na vila de Soure, é ainda criança que Carlos Luís toma o primeiro contacto com o ‘mundo’ que abraçaria para a vida. Pela mão do avô materno – o bombeiro voluntário José Vieira – começa a frequentar o quartel da corporação da sua terra. Era o “bichinho” a nascer…

A mãe também haveria de envergar a farda, tal como pai, Carlos Tavares, que chegou a segundo comandante e fez uma carreira “longa e bonita” nos Bombeiros de Soure.

“O meu avô e o meu pai foram, na época de cada um, grandes bombeiros, e para mim foram e são uma referência”, enfatiza Carlos Luís Tavares, que aos 14 anos se torna “oficialmente” bombeiro.

Com uma família de bombeiros, difícil era Carlos Luís não lhe tomar o gosto e dar continuidade a décadas de serviço ao voluntariado e apoio às populações.

A vivência daqueles primeiros anos fez-lhe crescer a “vontade de servir, de socorrer pessoas, acima de tudo, de ser útil e de poder ajudar”.

“Passava o meu tempo no quartel. Os meus pais quando me queriam procurar já sabiam onde estava: iam ao quartel dos bombeiros e eu lá estava”, conta ao TERRAS DE SICÓ, com indisfarçável nostalgia.

Carlos foi conciliando os estudos com as tarefas de bombeiro. Chegou ao 12.º ano e “quis logo ir trabalhar”. E foi. Como motorista. Onde? Nos Bombeiros Voluntários de Soure! Estava-lhe já no sangue…

Chega a trabalhar em Coimbra na empresa do também sourense Manuel Madeira, mas acaba por fazer carreira profissional durante mais de uma década e meia como bancário, sendo mesmo gestor do balcão de Soure da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, onde se mantém até 2013, sempre de braço dado com os Bombeiros.

“Era bombeiro diariamente, fazia os serviços, ia aos toques de serene, ia a tudo o que podia”, lembra.

Comando chega em 2002

Foi subindo na carreira de bombeiro, sempre com os princípios que lhe haviam sido incutidos pelo avô e pelo pai: disciplina, rigor e humildade. Não se deu mal e hoje não está nada arrependido de os ter seguido.

Cresce dentro da corporação e é com naturalidade que, em 2002, o então presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Soure, Manuel Morgado, o convida para assumir o comando. “Claro que muito me lisonjeou, mas nunca tive a ambição de ser comandante. Tinha um bom comandante, António Bernandes, um bom segundo comandante, o meu pai Carlos Tavares, e um bom adjunto, Manuel Salvaterra, gente de referência que me deu princípios de educação. E, por isso, nunca tive a ambição de ser comandante, gostava era de estar na primeira linha, gostava muito de conduzir, de servir”, salienta.

A chegada àquele topo – longe de imaginar que subiria ainda mais – é o evoluir na carreira. E por lá se manteve durante 11 anos. “Foi um grande desafio, muito interessante. Os Bombeiros de Soure tinham bom material, mas precisavam de motivação humana e foi aí o meu trabalho. Foi motivar as bombeiras e os bombeiros. Com o apoio da Câmara de Soure, então liderada por João Gouveia, conseguimos logo no início oferecer um capacete a cada bombeiro – antes tínhamos 20 capacetes a dividir por todos os bombeiros – e mais algum equipamento de protecção individual”, detalha o antigo comandante.

“Foi motivante ver crescer o Corpo de Bombeiros, regressaram algumas pessoas que tinham saído, fui buscar novos bombeiros, tivemos boas escolas de formação e cerca de 130 operacionais no activo. Saí orgulhoso do trabalho que fiz”, confessa.

E a saída deu-se no Verão de 2013 quando é convidado para comandante distrital de Operações de Socorro de Coimbra (CODIS). “Aceitei com grande satisfação, porque era a cereja no topo do bolo, era subir na carreira. Gosto daquilo que faço e quando se gosta daquilo que se faz, estamos felizes. E eu sinto-me feliz pelo percurso que já fiz”, admite.

De quase 10 anos como ‘Sr. CODIS’, destaca a união e a motivação que sentiu pelo distrito entre os diversos agentes da protecção civil, fundamentais para “conseguir resolver os problemas dos cidadãos”.

Carlos Luís Tavares diz que jamais esquecerá o trágico 2017, ano dos fatídicos incêndios, “o pior ano de sempre. Custou-me imenso, vimos pessoas a morrer, pessoas a sofrer”.

O jovem que então deixou de estudar concluído o 12.º ano, era, anos mais tarde, o homem a precisar de mais formação. A experiência de anos no terreno começava a não bastar aos olhos da lei para o desempenho de funções e Carlos Tavares não hesita em enriquecer-se: volta às lides académicas para se licenciar em Segurança Comunitária e, depois, mestre em Gestão de Emergência e Socorro.

A recente reorganização da Protecção Civil pôs fim aos comandos distritais e criou os comandos sub-regionais tendo por base a área das comunidades intermunicipais. O sourense transita para a nova estrutura, mantendo-se ao leme da emergência e socorro, agora, de 19 municípios, com Mealhada e Mortágua a juntarem-se aos anteriores 17.

“As funções são as mesmas, o desafio é idêntico e aliciante, é a continuidade do trabalho que vinha a desenvolver, na certeza de que nada se faz sozinho, sozinho ninguém consegue. Há um conjunto de pessoas – desde bombeiros, comandantes, forças de segurança, comunicação social, o próprio cidadão – que me permitiu chegar onde cheguei, pois de outra forma não o conseguiria. Digo isto com muita humildade, digo-o de coração e é a pura realidade”, enfatiza Tavares.

Ao longo de nove anos e meio, o CODIS foi uma figura consensual no meio. Porquê? “Acima de tudo pela proximidade que criei e porque os comandantes de bombeiros sabem de onde venho. Sou oriundo dos bombeiros, faço parte do quadro de honra de comandantes dos Bombeiros de Soure, e só porque fardo de cor diferente não há porque não ser respeitado pelos bombeiros. Já percorri o caminho que alguns comandantes estão agora a percorrer, posso-lhes ser útil porque tenho essa experiência e eles também têm a sua experiência para me darem. Daí, existir um bom relacionamento”, justifica.

Família prejudicada

Com cargos de tamanha responsabilidade já há muitos anos, Carlos Luís Tavares, pai de dois jovens, sabe bem, por experiência própria, o que fica para trás para ser conseguir ser um “bom comandante”: a família. “Prejudico muito os meus filhos, prejudico muito toda a minha família com as minhas ausências, porque gosto de estar empenhado as 24 horas do dia. O telemóvel está sempre à mão, porque tenho de acompanhar as ocorrências desde o início. Só se consegue ser um bom comandante se tivermos disponibilidade para exercer essa função e eu tento-o fazer da melhor forma que sei. Acabo por prejudicar a família, mas sinto-me orgulhoso do trabalho que vou desenvolvendo e do bem que praticamos”, realça.

Aos 50 anos e uma vida profissional feita de incerteza permanente, em que um acidente, um incêndio ou outra ocorrência severa podem substituir outros compromissos mais ‘mundanos’, Carlos Tavares está hoje “mais caseiro” no pouco tempo livre de que dispõe. Procura fazer a vida de “um cidadão normal”, gosta de acompanhar os filhos e não deixa mesmo de seguir a ainda curta carreira futebolística do herdeiro mais novo, que actua no escalão sub-15 do Ança FC, do concelho de Cantanhede. Não será um Ronaldo, mas “tem jeito para a bola”, afiança.

“Não deixo nada para trás do que gosto de fazer, mas a minha paixão sempre foi a protecção civil”, reforça.

Trabalha em Coimbra, mas vive em Soure. “Gosto muito da minha terra, é uma vila bonita, que precisa de crescer um bocadinho, de se desenvolver um pouco mais”.

Uma ida ao café, à noite ou ao fim-de-semana, dois dedos de conversa com os amigos, “dar uma voltinha pelo centro da vila” são rotinas de Carlos para manter o contacto com as suas gentes.

E o futuro? “Não tenho outra ambição senão fazer o melhor trabalho possível. Gosto do que faço e, portanto, vou continuar a fazê-lo, com ambição e motivação. É isto que gosto de fazer e estou bem assim”.

O velho ditado ‘Quem corre por gosto não cansa’ não terá sido criado a pensar em Carlos Luís Tavares, mas bem podia ter sido. Assenta-lhe que nem uma luva…

LUÍS CARLOS MELO


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