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NATÉRCIA MARTINS

Com os cabelos em pé

18 de Novembro 2022

Silvério é o que, na minha terra, chamam um cagadinho de medo. Tem medo de tudo. Até uma pequena formiga pode ferrar-lhe e tem de ir para o hospital. E das bruxas? Nunca viu nenhuma, mas tem medo. Ora se tem!

Todos sabemos que as aldeias são carregadas de lendas de bruxas e lobisomens. As encruzilhadas são os sítios preferidos. É à noite que elas aparecem. Dizem!

Acontece que, quando casou foi morar para uma casa no alto da serra. Tem poucos vizinhos, mas mesmo assim não vai para a cama sem verificar se está tudo trancado. Antes até espreitava debaixo cas camas, não fosse lá estar um ladrão ou uma bruxa.

Também não tem mobílias ou pertences que agradassem a qualquer um para roubar. Mas adiante. E será que as bruxas querem alguma coisa dali?

Nasceu um filho e depois outro. Enquanto a mulher esteve no hospital, foi a televisão a sua companhia. Deixava-a ligada. Pelo menos era alguém a falar.

Um dia, ainda com os filhos pequenos e a mulher no trabalho, foi visitar um amigo na vila. Vai de contar algumas aventuras, umas verdade, outras nem por isso, umas fatias de presunto, uma cerveja e fez- se noite sem dar conta.

Silvério tinha de passar numa encruzilhada com fama de onde as bruxas se juntavam para fazer as festas.

Ora acontece que ele já tinha olhado para o relógio do carro e era quase meia-noite. Não podia ficar. Acelerou o carro. Meia-noite em ponto! Nisto, com as portas bem trancadas, um dos filhos espirrou ficando com o “ranho” pendurado no nariz. E agora? Paro o carro e limpo o nariz ao rapaz? Deixo ficar até chegar a casa?

Optou por parar ali mesmo no caminho onde só havia pedras e mato alto, mas mesmo na encruzilhada. Virou-se para trás, e eis que um vulto se abeirou dele, bateu no vidro e perguntou qualquer coisa que não entendeu. Ia morrendo. Logo ele…. Arrepiou-se. Os cabelos ficaram em pé.  A “bruxa” não sabia que ele tinha assim tanto medo, no entanto conheceu-o. Silvério olhou e viu uma pessoa vestida de preto com um lenço preto também, na cabeça.

Pensou: é hoje. É hoje que me matam ou me fazem… Nem sei o quê.

Pôs o carro em andamento e sem sequer acabar de limpar o nariz ao filho, foi para casa. E o caminho pareceu-lhe tão longe. Muito mais longe que o costume onde passava sempre, mas durante o dia. As curvas da estrada foram feitas como pode, umas mais dentro e outras por fora. O carro ganhou uma espécie de asas. Só parou quando viu o portão de casa. Alívio… Pensou. Desatou a correr com os filhos ao colo.

No outro dia contou o que aconteceu. Afinal era apenas uma senhora a quem morrera o marido, trajava de preto e que ia a caminho de casa de uma filha, para lá dormir. Só podia ir àquela hora. Conheceu o carro e sem saber que ele era um medricas, perguntou se precisava de alguma coisa.  Estar ali parado não era seu hábito.

Bem, bruxa não era! Ao menos isso.

Não dormiu descansado, pois até nos sonhos elas o atazanavam.


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