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A Educação muito antes dos 8 e muito além dos 80!

25 de Outubro 2022

Sou neta de uma mulher, de uma aldeia do interior, que sabia muito da vida, mas nunca aprendeu a ler e escrever. A minha mãe obteve a qualificação do 9.º ano com as Novas Oportunidades. Sou mãe de uma jovem de 15 anos, que escolheu humanidades e tem o privilégio de ter acesso ao ensino artístico gratuito.

Como professora e educadora de adultos tenho esperança! Tenho o privilégio de, na minha profissão, ver o lado bom, o potencial das pessoas, das comunidades, do mundo, do futuro, mas estou preocupada.

Estamos habituados a valorizar os conteúdos, as matérias, os manuais, os testes, os exames, o cognitivo. A olhar só para a escola, como se esta fosse só notas, competição, pressão.

A Escola deve ser Educação, mas Educação é muito mais do que a Escola.

A educação é permanente, ao longo de toda a vida, em todas as dimensões da vida, pela vida e para a vida!

Está presente na família, na creche, no jardim de infância, ensinos básico, secundário, superior, profissional, nas bibliotecas, nos escuteiros, nas bandas filarmónicas, nos ranchos folclóricos, nos grupos de teatro amador, nas universidades seniores, nos centros comunitários, centros de dia, lares de idosos. Também é educação e formação profissional, educação comunitária e educação de adultos.

Os protagonistas são quem aprende, somos todos, aprendentes ao longo da vida, actores nesta missão educativa: os alunos, as mães e os pais, os professores, os adultos, os participantes dos projectos, os idosos, os profissionais de educação e animação, os políticos…

O Ministro da Educação parece empenhado em resolver algumas “doenças crónicas” do sistema educativo, como a colocação e a estabilidade dos professores, mas a falta de professores vai exigir um reinvestimento grande na formação, a valorização da profissão e libertação das escolas e dos professores da burocracia. È preciso dar atenção especial à educação especial, entre outros desafios. Elogio a aposta no ensino artístico público e gratuito, mas que ainda é desigual no nosso país.

Nada sobre as pessoas sem elas, por isso devem participar, desde crianças, decidir, têm voz e essa voz deve ser ouvida e deve contar.

Conto-vos a história da D. Maria, como tantas outras Marias, não teve oportunidade de ir à escola, e viu a escolar, na sua aldeia, fechar. Viu-a reabrir, como participante nas oficinas de alfabetização do Projecto Letras Prá Vida, em Condeixa, com o apoio do Município.

Que se abram as escolas fechadas para que estejam ao serviço das pessoas e comunidades e educação para todos. Que as escolas possam, à noite ou ao sábado, acolher projectos de educação não formal com pessoas adultas, promover a literacia, a literacia digital.

Os municípios, com maior responsabilidade educativa, não se podem deixar ficar pela acção instrumental, focada no apoio ao ensino formal. Devem apoiar a educação comunitária, desenvolver iniciativas intergeracionais, de educação de adultos idosos, com parcerias com as instituições sociais, integrando animadores e gerontólogos nas suas equipas de acção social e educativa. É fundamental articular os serviços de educação com os serviços sociais. Precisamos trabalhar todos e conjunto.

Investir na educação para todos é também combater a pobreza, que é muito preocupante, nas crianças, nos jovens, nos adultos desempregados e nos que estão empregados mas que não conseguem ganhar o suficiente para sair da pobreza, também nas pessoas mais velhas.

No ensino superior, o esforço de democratização é evidente para os jovens adultos, mas há muito a fazer para promover a inclusão, o acesso e sucesso, por exemplo das jovens ciganas, dos estudantes com necessidades educativas especiais, dos trabalhadores e estudantes mais velhos, das mulheres estudantes com enorme carga laboral, cuidadoras informais, dos estudantes com graves dificuldades económicas, às quais a acção social ainda não responde. As instituições de ensino superior têm procurado responder a estes desafios. O Instituto Politécnico de Coimbra, no qual trabalho, irá construir uma nova residência para estudantes, tem vindo a fortalecer a sua relação com o território, a investir na investigação e desenvolvimento, e na inovação e formação pedagógica dos seus docentes, por exemplo, com o trabalho do CINEP, mas também na cultura e nas artes, com o Centro Cultural Penedo da Saudade.

“A educação de adultos é uma das primeiras prioridades, para o bem-estar de uma sociedade”, disse o Ministro da Educação João Costa, em 2021, na altura ainda Secretário de Estado, no IV Encontro de Educação de Adultos Prá Vida. Não tem sido prioritária, mas espero que venha a ser.

Está aberto o concurso relativo à criação de Projectos Locais Promotores De Qualificações financiado pelo PRR. Tenho esperança que sejam Projectos de Educação de Adultos, que mobilizem a comunidade local, que cheguem às pessoas, com “envolvimento de projectos e iniciativas de educação e formação não-formal, no âmbito da alfabetização de adultos e desenvolvimento da literacia, com implantação local. Valorizam-se estratégias inovadoras, no que diz respeito à forma como estimulam a aprendizagem e a autonomia dos adultos, a flexibilidade no trabalho com os adultos e o desenvolvimento de competências de literacia entre outras competências básicas.” Os animadores podem ter aqui um papel muito relevante enquanto mediadores nestes processos! O sentido é único, é o da qualificação. É esse o papel assumido da ANQEP. É importante, mas não suficiente! Tinha esperança de que o Plano Nacional de Literacia se concretizasse noutros sentidos também, porque precisamos de mais, de Educação humanista e crítica, que pratique e ensine democracia, para todos e para toda a vida, não só para o emprego, mas para vivermos melhor, em paz e e liberdade!

A educação para todos, em todas as idades, mesmo nas mais avançadas, deve ser um bem público. Pela justiça social! É um direito e um investimento!

Não estamos feitos num 8, mas é preciso garantir a Educação muito antes dos 8 e muito além dos 80!

Obrigada por publicar sobre educação e parabéns pelo aniversário! 

 

Dina Soeiro

Professora da Escola Superior de Educação de Coimbra

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