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NATÉRCIA MARTINS

O ladrão das maçãs

2 de Setembro 2022

A minha avó ralhava todos os dias. É que, dizia ela, andavam a roubar as maçãs. Era um bem precioso porque além de serem uma fonte de rendimento eram muito sumarentas e doces. O ladrão escondia-se e de noite ia roubar maçãs. Diga-se que não roubava muitas. Apenas uma ou duas, o que não deixava de ser um rombo. Todos os dias!

A quinta era grande. Era mesmo? Hoje não sei se seria assim tão grande. Aos meus olhos de criança era muito grande.

Tinha macieiras, pereiras, laranjeiras, cerejeiras e um nunca mais acabar de árvores de fruto. As figueiras eram a minha delícia. Grandes figos lampos ou pequenos e pretos. Os da figueira junto ao poço eram os que me deliciavam até porque tinha ramos que davam tanto para trepar e colher os belos e apetitosos frutos como para subir e ficar ali no ramo a fazer balancé. A minha avó era uma velhota divertida. Gostava de uma boa piada e de contar histórias que envolviam bruxas, lobisomens e almas “penadas”. Eram os nossos serões numa aldeia da serra onde só se conseguia ver com o candeeiro de petróleo colocado no meio da mesa.

As pereiras lá em cima, junto ao tanque ficavam vermelhas e doces. Só descobri o quanto eram doces uns bons anos mais tarde, quando verdadeiramente elas ficavam maduras, mas nesse tempo já eu e o meu irmão tínhamos rumado às nossas vidas profissionais.

A minha avó morreu no dia dos meus anos e o seu funeral no dia dos anos dela. Não será o dia indicado para uma avó morrer, mas foi nesse mesmo dia que ela nos deixou. E eu que morava com ela, chorei. Chorei porque com ela o meu mundo também desabou.

A minha avó fez-me muito mais falta do que alguma vez imaginaria. As corridas na quinta atrás das galinhas, dos patos e do cão acabaram. A minha mãe não gostava disso. Depois também crescemos quase sem dar muito por isso. Apareceram os primeiros namoricos. As mães são muito menos permissivas.

Também sou avó e um dia perguntei a um dos meus netos o que era a avó para ele. Resposta do Matias: és tu, minha avó que me levas à cama o meu beijinho de boa noite.

Só isto encheu-me o coração de tal forma que ser avó é a coisa mais bonita do mundo.

A minha avó tinha uma varanda muito grande (seria assim tão grande?) que eu corria de um lado ao outro com o cabelo ao vento. O sol coloria as minhas faces da cor das maçãs.

Mas ainda pensando no mesmo. O ladrão das maçãs tinha que aparecer. Esquisito!

Ficámos à espreita. E de mansinho na calada da noite, vimos um animal pequeno com grandes espinhos no dorso. Era um ouriço-cacheiro! Hoje sei que além de ter espinhos grandes no dorso, também é animal de estimação e competição.

Nem me passou alguma vez, pela cabeça que avaliam a cor, os picos e até o bom humor do animal.

Este era dos bem-humorados.

O meu irmão sentou-se no degrau da escada com uma maçã na mão e devagarinho, o ouriço veio e com muita calma, subiu pelas calças aninhando-se no seu colo enquanto com os dentinhos finos começou a comer. Primeiro uma dentadita na casca. Depois pegou nela e com a boca levou a maçã para o ninho onde a ninhada de ouricitos a esperava. Não sei se era a avó ou a mãe. Para mim foi a avó ouriço que levou a maçã aos seus netos.

As avós são assim!


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