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Teresa do Nascimento Silva, a mulher das mil e uma causas

6 de Março 2022

Maria Teresa do Nascimento Silva nasceu na pequena aldeia de Nogueira de Pontes, a sete quilómetros de Leiria. Chegaria a Pombal em 1978 para trabalhar, enquanto assistente social, nos serviços médico-sociais que, posteriormente, em 1984, foram integrados nos centros de saúde já existentes. Mas antes de falar sobre a sua vida adulta, importa contar como foi a sua infância e como surgiu a ideia de ser assistente social.

“Quando eu escolhi o curso nem sequer sabia o que era assistente social. Não sabia que trabalho é que faziam. Foi uma escolha influenciada por uma madrinha minha que me disse que devia ser assistente social. Tudo contra a vontade dos meus pais que me queriam ver como professora, porque naquela altura as mulheres ou eram enfermeiras ou eram professoras. A minha mãe sempre teve o sonho de ser enfermeira e a mim, como não tinha vocação para aquilo, já me dizia para pelo menos estudar para ser professora. Isto porque a ela não a deixaram estudar”, conta Teresa Silva ao TERRAS DE SICÓ.

Mas a ideia de ser professora não a agradava, as memórias que tinha não eram as melhores. “Tinha tido uma experiência tão má na minha primeira escola, onde só estive um ano na escola da minha aldeia, tudo porque os meus pais estavam incompatibilizados, à conta de terrenos, com a professora e perceberam que eu estava a ser marginalizada, que ela me excluía e não me ensinava nada. Além disso, mandava os mais velhos baterem-me e ela também me batia com a régua. Então ali não aprendi nada”, diz.

Depois de uma primeira experiência escolar de inferno, os pais resolveram mudá-la para o Colégio Nossa Senhora de Fátima em Leiria. “Foi neste colégio efectivamente que frequentei o primeiro ciclo de ensino, porque como não trazia qualquer base tive de repetir o meu segundo ano. Mas não foi só pela falta de bases. É que eu vinha de um meio rural, onde o falar das pessoas era diferente do da cidade e senti esse choque”.

Foi por volta dessa altura que a madrinha lhe disse que deveria ser assistente social e a começou a levar a casa de uma família mais desfavorecida. Embora não se identificasse com o trabalho que a madrinha ali fazia, decidiu arriscar e rumou a Lisboa, aos 17 anos, para ir estudar.

A ida para a capital foi fácil porque já conhecia a cidade, particularmente Alfama, dos tempos das férias que lá passava com as primas e identificava-se tanto que depressa aceitou e lá foi.

Quando concluída a licenciatura, preparava-se para voltar às suas origens, porque sabia que todas as suas colegas da área tinham encontrado trabalho na segurança social ou nos serviços médico-sociais em Leiria, mas Maria Teresa não queria deixar a cidade com que tanto se identificava.

“Na noite do meu último dia de estágio, recebi um telefonema da secretária do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a perguntar se queria ficar a trabalhar com eles e então comecei logo a trabalhar no primeiro dia de Agosto. Trabalhei desde o início com crianças nuns ateliers que lhes eram destinados nos bairros sociais onde viviam”, recorda.

E se durante o dia o seu tempo era dedicado a estas crianças, à noite o seu trabalho passava por educar os pais onde tentava “mudar comportamentos e atitudes perante as suas famílias” consciente, já na altura, de que a melhor forma de passar a mensagem aos adultos “é através das suas crianças, dos seus filhos”.

A chegada a Pombal

No entanto, findos sete anos em Lisboa rumou a Pombal, isto porque tinha aqui a família e porque em Leiria não existia vagas que pudesse ocupar.

“Recordo-me de tudo como se fosse hoje. Era tudo completamente diferente. O autocarro ainda parava à frente da Câmara e como vinha de uma grande cidade tinha outra forma de me apresentar. O meu marido da altura tinha-me oferecido um casaco de pele de coelho, eu já me maquilhava e ainda por cima fumava. Ora, entrei num café e tudo parou a olhar para mim”, conta.

Nesta época lidou com muitas questões relacionadas com a emigração, porque “as mulheres ficavam sozinhas a tratar de tudo, muitas vezes os maridos já não regressavam, noutras situações os maridos tinham duas famílias, o dinheiro vinha para o banco e elas não podiam mexer. Viviam do que o campo lhes dava e trabalhavam no campo. Vendiam o que tinham, muitas vezes em prejuízo da alimentação dos filhos”.

“Lidei com isto tudo porque muitas delas me eram encaminhadas pelos médicos que era a figura com quem elas desabafavam”, mas a ausência de recursos financeiros levava a que tivesse de articular com Lisboa para que as ajudas lhes fossem dadas.

Mas isto não lhe chegava. Perspicaz como sempre foi, procurou resolver outra questão que também a inquietava: uma creche onde as mães que queriam trabalhar deixassem as suas crianças.

40 anos de APEPI

“Comecei a falar com um colega da falta que uma creche fazia na cidade, mas sabia que para que essa resposta nos fosse atendida teria de a fundamentar muito bem. Fiz então um trabalho com as grávidas a fim de saber quais as suas necessidades, porque começou a desenvolver-se na zona industrial da Formiga e estas mulheres queriam ir para lá trabalhar, mas não tinham onde deixar os filhos. Foi esta a fundamentação para a criação da creche e do pré-escolar”. Fez então parte da comissão que implementou esta resposta social e há 40 anos que integra a direção da Associação de Pais e Educadores para a Infância (APEPI), em Pombal.

“A minha mãe sempre me disse que eu é que devia ter nascido rapaz porque sempre fui uma mulher de pulso firme. Fui criada com muitas mulheres em casa e sempre vi que elas eram muito dependentes da figura masculina, e eu já naquela altura achava que aquilo era uma injustiça muito grande. Percebi cedo que a mulher tinha um papel secundário em relação ao homem”, confidenciou Teresa Nascimento, frisando que “as mulheres podiam ter um papel tão importante como o dos homens e que devíamos lutar por isso”.

A sua consciência social e a clareza que sempre teve em relação ao papel da mulher fez com que agisse firmemente na questão da violência doméstica. E quando a primeira mulher lhe bateu a porta a pedir ajuda, não hesitou. “Uma rapariga que estava casada com um homem de etnia cigana pediu ajuda porque ela e as filhas eram maltratadas por ele. Eu sabia da existência de uma casa que acolhia mulheres vítimas de violência em Lisboa e consegui que ela fosse para lá”, recorda a presidente da direcção da APEPI.

O resultado disso foi a criação, em 2001, da primeira casa para mulheres vítimas de violência doméstica a existir no distrito de Leiria, com o nome Teresa Morais, mas as valências da APEPI não se ficam por aqui. A instituição conta actualmente com sete respostas sociais e sete serviços/projectos.

Quando olha para tudo o que fez e o que construiu, “sempre com o apoio de uma boa equipa”, reconhece que cumpriu o seu propósito e que “embora tivesse uma vida pessoal sofrida, focava-me nas coisas que podia fazer e na concretização dos sonhos que tive. Foquei-me no meu trabalho para os outros e com os outros, e assim preenchi a minha vida”. Continua a ser assim ainda hoje.

RUTE AZEVEDO SANTOS


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