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NATÉRCIA MARTINS

Fui ver o mar

17 de Dezembro 2021

O mar! Sim, o mar!

Cresci junto dos pinheiros, no Portugal profundo. Ali não há mar. Só pequenos regatos e o rio Zêzere, maior lago onde se brincava sem molhar os pés. Era bem fundo e a recomendação de casa era que podíamos morrer afogados.

O mar era uma miragem. Ali mesmo junto ao rio pensei muitas vezes como seria o mar. Grande? Isso era certo. Até se dizia que o mar não tinha fundo. Na minha cabeça de adolescente, devia haver musas e príncipes encantados a navegar por entre as ondas. Piratas que saqueavam os navios e marinheiros. Seria mesmo assim?

Um dia, fui ver o mar. Sentei-me na areia mole escorregadia. Tentei absorver, com todos os sentidos aquela massa enorme de água. Como era grande o mar! Olhei lá bem para o infinito. Não tinha fim.

Afiei a vista e vi sair das águas uma personagem, meio peixe, meio mulher. Era uma sereia e vinha conversar comigo. Ah! Afinal há sereias. Pois é!

A sereia levou-me com ela ao fundo do mar. A sua casa é lá bem no fundo com algas e um tubarão enorme a montar guarda. A casa era escavada na rocha, decorada com búzios e conchas. Um peixinho às cores veio receber-nos à porta e o peixe palhaço, lindo, lindo, fazia danças.

A sereia fez um gesto a convidar que me sentasse. Tudo o que tinha era algas, conchas, pedras brilhantes e os bancos cavados na rocha. Conversámos muito. Ela sabia tudo o que se relaciona com o seu meio ambiente: o mar.

Contou-me havia peixes, marisco e mamíferos. As baleias em tempos eram caçadas, mas isso caiu em desuso. Disse-me, também, que é uma pena, mas o mar sofre constantes danos como seja a absorção do dióxido de carbono atmosférico em grandes quantidades diminuindo o seu PH. Ainda a poluição humana. O mar é local de diversão e lazer como seja a natação, o mergulho, surf e iatismo. Disse-me que à porta estava sempre uma baleia, sua amiga em cuja companhia vai passear. A água do mar é salgada, tão diferente da que costumas passear e nadar. Mas eu gosto de aqui morar.

O mar tem ondas e é nessas ondas grandes que têm cristas que os surfistas as escalam sem medo. Foi com o surf que McNamara levou o nome de Portugal e da Nazaré a todos os cantos do globo. O mar é uma espécie de céu líquido, que parece não ter fim. O mar é como se nos lavasse a alma. Pensando bem os poetas, músicos e artistas têm usado o mar como fonte de inspiração.

O azul das águas parece cheio de segredos e quando olhamos o reflexo das águas somos levados a pensar sobre o Mundo, os outros e nós mesmos.

Deve haver alguma coisa estranha com o sal. Encontra-se no mar, nas nossas lágrimas e também no suor. A Terra é o único planeta conhecido que abriga água líquida na sua superfície.

O facto de o mar estar calmo na superfície não significa que algo não esteja acontecendo nas profundezas. Era sábia aquela sereia! Nisto junto da porta aberta apareceu uma dourada e um polvo. Brincavam os dois. A dourada entrou e deu um beijinho à sua amiga, dois passinhos de dança e algumas piruetas. Abalou! O polvo ficou à porta pois tantos braços atrapalhavam.

Nisto ouvi um som que me despertou. Afinal eu tinha dormido e sonhado. A areia fina e o calor que se fazia sentir sem me dar conta.

A maré desceu. Eu ali, deitada na areia. Era quase noite. As pessoas foram quase todas para casa. Apenas uns rapazes jogavam à bola indiferentes ao anoitecer.

Encostei a cabeça à vara que sustentava o chapéu de praia e pensei: afinal há sereias ou é fantasia dos nossos pensamentos?

Juro que a vi e estive lá dentro de casa, escavada numa rocha no fundo do mar. Falei com ela. E como era sábia!

 


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