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NATÉRCIA MARTINS

Pão e pães

5 de Novembro 2021

Há tantos anos! Era quase um ritual. Sentava-me no degrau da escada da frente de casa e esperava o moleiro. As escadas, naquele tempo e para mim, com pouca idade eram enormes. Se calhar nem eram assim tão altas. O moleiro, Sr. Abílio, chegava com os burros atados uns aos outros e trazia a farinha moída naquela noite. Os “foles” da minha avó eram feitos de pele de cabra. Esfolava-se e depois de devidamente tratada era onde a farinha se transportava. Também havia as taleigas feitas de retalhos, já muito velhas, mas ainda serviam.

De manhã tratava-se da masseira. Depois com a peneira fina peneirava-se a farinha de trigo. Com a peneira de rede mais aberta era a de milho.

A minha avó Amélia tinha muita gente a comer, então tinha de ter muito pão.

A de milho era escaldada com água a ferver. Enquanto esta arrefecia amassava-se a de trigo e centeio. Ah! Pois é. Muito pãozinho se fazia naquela casa.

O fermento era um resto de massa que se deixava da cozedura anterior. Isto é: o que se chama massa velha. Quando não havia tínhamos que pedir à vizinha.

A massa de trigo e de centeio era difícil de amassar. Agarrava-se muito às mãos. Sim! Eu ia lá ver como se fazia e como elas diziam: meter o bedelho.

A lenha vinha do pinhal. Era sempre uma boa carrada. A lenha entrava no forno e aí ardia fazendo um enorme braseiro. Com um ramo feito de fetos ou folhas verdes de couve, varria-se o lastro do forno. Tarefa difícil porque o calor era muito. Nem toda a gente sabia varrer o forno.

Esquecia-me de dizer que o forno também tinha ciência na sua “feitura”. Com tijolo compacto, a que se chama tijolo burro acamado em forma de cone. O seu remate é um só tijolo. Havia especialistas a fazer este tipo de serviço. Se não ficasse bem feito, não cozia a broa ou o pão. A broa é ou era o mais utilizado. Em conversa com o meu vizinho disse me que os pedreiros para experimentar o forno, assavam ali um tabuleiro de batatas e bacalhau. Um rico petisco, regado com o azeite vindo de lagar, melhor ainda.

Agora que a massa levedou e o forno estava quente, no ponto certo, a minha avó levava a “tendeira” que não era mais que uma tigela funda com dois riscos por fora a distinguir de todas as outras.

Um a um o pão lá ia para a quentura do forno. A pá de madeira era utensílio indispensável. Com uma ponta grande a que chamávamos “rabo da pá” ajeitava-se o pão lá dentro. Todos nós sabíamos quantos pães levava. Os de milho chamada de broa e o pão de trigo e centeio.

Agora estão a ver o tamanho do forno. Eu e o meu irmão cabíamos lá dentro nas nossas brincadeiras de cachopos.

Quando a massa chegava perto do fim fazia-se o pão com presunto, chouriço ou sardinha. Comíamos logo à saída do forno, sentados no chão ou na lenha que sobrava, quando se mexia o pão. Tínhamos que o mexer, isto é: mudá-lo um pouco de sítio para ganhar aquela crosta no fundo a que chamamos lar. Isto é o que retenho na memória do meu tempo de criança.

O pão hoje, não é feito assim de forma tão artesanal. Ainda há quem coza a broa ou o pão, mas já poucas pessoas se dão a este trabalho.

O pão tem, hoje, muitas variedades. Pão de mistura com outras farinhas, pão de rala, pão com sementes e por aí fora. A imaginação humana assim obriga.

Não se pode viver sem pão ou seus derivados. Faz falta ao organismo os ingredientes que constituem a farinha.

Mas ainda é uma incógnita o aparecimento do pão. Conta-se que alguém amassou farinha e água. Deixou um pouco de lado e foi embora. Quando regressou, esta aumentara de volume: tinha levedado. Terá sido assim que se começou a fazer pão embora no seu início teria sido cozido na laje quente do “borralho” Os fornos apareceram depois.

Também se pode utilizar de forma jocosa para elogiar alguém:

– Que rico pão ali vai!


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