7 de Dezembro de 2021 | Quinzenário Regional | Diário Online
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NATÉRCIA MARTINS

Moro aqui

17 de Setembro 2021

Eu moro aqui. Aqui onde não há nada. Mas nada de nada. Será mesmo assim?

A soleira da minha porta é lugar de conversa e desfiar de memórias de outros tempos. Do tempo em que a electricidade era coisa da cidade. Aqui era a candeia de azeite ou o candeeiro de petróleo. Mas vivia-se.

As famílias eram de uma forma geral numerosas. Famílias com oito, nove filhos ou mesmo mais. As casas muito pequenas acolhiam todos. Comia-se com o prato no colo, à lareira, ou até um prato grande onde todos comiam ao mesmo tempo. O garfo ou a colher também era o único talher. Cada um tinha o seu. Quase sempre a mãe cortava um naco de broa e o colo era, mais uma vez, local de refeição.

À noite, as raparigas dormiam na cama da mãe. Acomodavam-se como podiam.

Os rapazes dormiam na cama do pai. Como não cabiam todos para o mesmo lado, aconchegavam-se para o lado dos pés.

Moro aqui e gosto. Podemos considerar que é um mundo selvagem onde há de tudo: animais e plantas. Não tem nascentes, portanto, as pessoas carregavam a água desde Alcabideque à cabeça e quantas vezes com um filho pequeno ao colo e a roupa que se aproveitava lavar na mesma fonte, em cima da “boca” do cântaro.

Há uma história que me contaram que não deixa de ter alguma graça. No pátio da minha sogra, começou a arder a capoeira dos coelhos. Os animais tinham ali o curral com o mato trazido lá de cima do monte.  As vizinhas trouxeram os cântaros da água que guardavam em casa. Essa água apagou o fogo. No outro dia o meu sogro andou o dia inteiro com o burro dele e umas cangalhas que pediu emprestadas ao peixeiro, a carregar água, nos cântaros de lata da fonte de Alcabideque para essas vizinhas que generosamente deram a sua água. É assim que se vive numa aldeia em parte ainda medieval.

Uma curiosidade que se utiliza é chamar “choisos” aos balcões pequenos e cultiváveis com batatas, vinha, centeio e oliveiras. Aqui há oliveiras tão velhas, mas tão velhas que não se sabe quem as plantou. Sendo terra com algum azeite, utilizavam as covas do baganho. Tratava-se de uns buracos grandes na mata onde se guardava o bagaço. Este bagaço não era mais que do que restava da moagem da azeitona. Era com este bagaço que se dava a comer aos animais. As rações vieram muito mais tarde.

Nesse tempo o dia começava com o nascer do sol. Terminava quando o sol se escondia por detrás dos montes.

Não iam para a cama sem lavar os pés. Todos na mesma água. Primeiro o pai, os filhos, as filhas e por último a mãe.

Quando o sol nascia já a Ti Grabelinda tinha ido colher ervas aromáticas que depois vendia.
Nesse tempo havia muitas. E ela sabia escolhê-las. Depois de colher as ervas ainda ia, a pé a Coimbra vender os ovos que ela própria comprava. Não arrecadava muito dinheiro, mas ajudava o governo da casa. O marido ia com o filho para a pedreira tirar pedra nos “balcões” que manipulavam como fatias de queijo. Utilizavam uma barra de ferro achatada na ponta. Serviço braçal. Só mesmo a força bruta utilizada. As filhas, também iam para a pedreira, fazer calçada ou pedra mais miúda chamada gravilha que hoje é feita com máquinas próprias.

A eletricidade veio revolucionar tudo. Os dias ficaram maiores porque a eletricidade ilumina e pode- se trabalhar até mais tarde. É o interruptor da luz que comanda a nossa vida, agora.

Hoje todos têm eletricidade e internet. Como o tempo evoluiu! E bem. Não podemos ficar parados no tempo.

Mas o que gosto mesmo é de me sentar na pedra da minha porta deixar a noite cair e ouvir os sons da mata: grilos, cigarras, mochos, cegarregas e a raposita à espera de uma refeição fácil. Até o som do cão que de vez em quando ladra.

Os meus vizinhos, tal como eu, trazem os bancos para a rua e desfiam ali as suas memórias que são muitas.

A vizinha Fernanda é uma boa contadora de “estórias “do antigamente. Perco-me a ouvi-la.

Também andou com o pai, o irmão e a mãe na pedreira. Quando havia uma festa ou romaria lá iam todos a pé pela estrada de terra. Cantavam e bailavam. Chegados a casa, quase sempre já ao amanhecer, dormiam um pouco e… vai para a pedreira.

Outros tempos!


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