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Maria Ascensão Rodrigues, a costureira que transforma trapos em arte

5 de Setembro 2021

Nascida e criada em Cabeça, pequeno lugar da freguesia de Santiago da Guarda, no concelho de Ansião, andou na escola apenas até à quarta classe, porque na altura só prosseguiam os estudos “quem tinha condições para isso”. Cresceu e partilhou a infância com mais dois irmãos, pois o terceiro só viria a nascer já ela tinha 17 anos.

Os trapos, companheiros de uma vida, entraram na vida de Ascensão ainda em criança. “Desde que me lembro que gosto dos trapinhos muito por causa da minha avó materna. Lembro-me que em casa da minha mãe ia lá uma costureira, isto porque antigamente as costureiras iam a casa das pessoas fazer-lhes as roupas, e nas casas que não tinham máquina a costureira levava a sua. E lembro-me da minha avó estar lá ao pé dessa costureira a ajudar a terminar as roupas e de eu ir para junto delas ver o que estavam a fazer”, conta Maria Ascensão Rodrigues ao TERRAS DE SICÓ.

Aliás, dos seus tempos de escola guarda na memória um episódio que a marcou. A mãe obrigou-a a devolver o que a colega lhe havia oferecido, uns trapos, tudo porque entendeu que “a minha colega os tinha trazido sem autorização ou que eu os teria roubado”.

A artesã, que sempre gostou do mundo das costuras, começou a aprender por volta dos 13 anos, mas não era todos os dias, até porque “o resto do tempo andava na agricultura. Na época do Verão, ia-se para o Ribatejo para as vindimas e para a azeitona que era para ajudar no sustento da casa”. Ainda assim, ao fim de um ano de estar a aprender na costureira, o pai comprou-lhe uma máquina porque “a minha já fazia outras coisas que a da minha mãe não fazia, pois a dela só cosia a direito”.

Apesar de não ser paga pelo trabalho, Ascensão também não pagava para aprender e com o tempo e a experiência foi fazendo mais do que os acabamentos.

Do interior para a cidade grande

Casou aos 20 anos sem vencimento e nem dinheiro na algibeira. “Era completamente diferente. Agora os jovens estudam e quando começam a trabalhar o dinheiro é deles, mas no meu tempo não era assim. Tudo quanto ganhássemos era entregue aos pais e quando casávamos não levávamos nada, tínhamos de começar do zero”, recorda Ascensão, acrescentando que “quando vim para a minha casa tudo o que trazia era o meu enxoval e tínhamos a casa feita. O meu pai na altura era pedreiro, então deu-me a mão-de-obra e o meu sogro assumiu o custo dos materiais. Não estava totalmente acabada, mas já estava feita. Na altura isso também não era importante, porque o meu marido estava em início de carreira em Lisboa e não ficámos cá a morar. Regressamos definitivamente só ao fim de cinco anos”.

Depois de casar rumou a Lisboa. O marido, que era polícia, foi mais cedo para encontrar um cantinho para os dois. Lá encontrou um quarto interior, sem janela, sem nada, na Calçada do Combro, hoje uma das ruas mais badaladas da capital, e lá viveram durante um mês.

Os primeiros tempos não foram fáceis. A cidade grande impunha respeito, levando a que durante muito tempo não saísse sozinha à rua, porque “tudo me complicava” e o eco constante das sirenes das ambulâncias também afligiam a “menina” vinda da aldeia.

Passado o seu primeiro mês, mudou-se para um quarto no Bairro Alto, porque “já era um quarto com outra condição e onde aproveitei para dividir com um cortinado o espaço e fazer uma sala e um quarto”. E foi naquele pequeno espaço que a sua vida como costureira teve início. Ia até ao Largo da Graça, “a umas águas-furtadas”, buscar peças para fazer.

“Trazia 10 ou 15 de cada vez. Quando acabasse as que tinha ia levá-las e trazia outras. E assim foi durante um ano”, recordou.

No entanto, no seu segundo ano, Ascensão e o marido compraram uma casa no Vale da Amoreira. Após nascer o filho mais velho soube que tinha de meter mãos ao trabalho e começou a procura de emprego nos jornais, até que encontrou uma empresa da Bobadela que lhe encomendava fatos de trabalho. E foi esta a última ocupação de Ascensão até se dedicar de corpo e alma à trapologia.

“Quando voltámos à terra, mantive o trabalho, mas aí era eu quem tinha de ir buscar e levar. Apanhava boleia, com um casal que vendia ovos por Lisboa, por volta das 2h00 da manhã e às 5h00 já estávamos a descarregar ovos em Almada. Andava todo o dia com eles a entregar ovos aos clientes. Só à vinda para cá é que fazia a troca das peças que tinha costurado com as que eram para costurar para a semana seguinte. Com a chegada do meu segundo filho tive que deixar o trabalho, porque não era viável com as duas crianças. Então voltei a ficar desempregada”, narrou a artesã.

Regresso às raízes

Desempregada, sem carta de condução, sem oferta de emprego na zona, valeu-se das suas habilidades e começou a dar vida aos retalhos.

“Um dia pedi ao meu marido que me trouxesse uns novelos de lã de Pombal, penso que para o cabelo de umas bonecas que cheguei a fazer, mas que não tinham jeito nenhum, tanto que nunca mais as voltei a fazer. A dona da loja perguntou-lhe para o que era e então sugeriu-lhe que fosse mostrar os meus trabalhos à dona do [restaurante] Manjar do Marquês. Lá fui. As bonecas foram logo colocadas de lado, mas a almofada que levava foi elogiada e disse-me logo que se quisesse fazer mais e experimentar que estava à vontade. Deu-me abertura para eu trabalhar e foi assim que comecei. Foi a minha primeira cliente”, relembra.

Da sua primeira cliente às feiras foi um piscar de olhos e Ascensão reconhece que foi graças a elas que “fui fazendo do Norte ao Sul do país e que ali fui ganhando os meus clientes. Uns foram ficando, outros não. Tudo dependia daquilo que as lojas iam vendendo”.

Uma arte com futuro?

Contudo, a vida de Ascensão é agora diferente. A perda da sua companhia de uma vida e das feiras marcou-a e obrigou a que reformulasse a gestão do seu negócio.

“Agora já não tenho vida para trabalhar a sério, vou apenas trabalhando. Apesar de me continuar a dedicar a isto, há outras vidas para gerir. Durante cinco anos foi a gerir a doença do meu marido, depois foi a gerir a despedida e agora sou cuidadora da minha mãe. E com isto da pandemia também não ajudou porque se os meus clientes não vendem, também não me vêm comprar. Geri sempre o meu trabalho mais por encomendas porque primeiro estava a minha família. Geria os meus horários em função dos do meu marido e filhos para estar com eles, porque este é um trabalho que não tem horários. É um trabalho que me dá liberdade, mas que não me dá um vencimento certo no final do mês. Possibilitou-me a que acompanhasse o meu marido no final da vida dele e não há nada que pague isso”, desabafa a artesã.

Quanto ao futuro da arte, não sabe se pode acreditar na sua preservação e continuidade, até porque “cheguei a dar formação nesta área em Santiago da Guarda e nenhuma das 15 formandas pegou verdadeiramente nisto”.

Ainda que não haja novas mãos a fazer vida desta arte, a arte de Ascensão Rodrigues fica para toda a vida.

RUTE AZEVEDO SANTOS


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