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Alvaiázere: Projecto Divinfood quer chícharo a “semear” novos modelos de negócio

4 de Setembro 2021

Alvaiázere será o palco do projecto Divinfood, que procura “valorizar culturas muito pequeninas e desconhecidas associadas à alimentação humana e que são muito nutritivas, bem como resistentes do ponto de vista agronómico, mas em que o seu potencial não está devidamente explorado quando poderia estar a contribuir para um melhor desenvolvimento da sua região e das comunidades em que se encontram” e que arrancará em Março de 2022, tendo a duração de cinco anos.

“Nós trouxemos o chícharo por se enquadrar na categoria de culturas pouco conhecidas, mas também porque já tínhamos trabalhado com ele e sabíamos que havia interesse por parte da comunidade de Alvaiázere em fazer melhor. Todos os investigadores têm de estar ligados a uma pequena comunidade local numa espécie de projecto designado como multi-actor e participativo, sendo a ideia principal que os investigadores trabalhem muito perto dessas comunidades”, explica ao TERRAS DE SICÓ Carlota Vaz Patto, investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa (ITQB Nova).

Para isso, a equipa portuguesa irá estabelecer um Living Lab, sistema organizacional de inovação, aberto, focado no utilizador que adopta estratégias de co-criação, integrando a investigação e a inovação na realidade das comunidades.

“É uma estrutura aberta da qual pode fazer parte qualquer pessoa que tenha interesse pelo chícharo. No fundo, são equipas de pessoas que trabalham para o mesmo fim, mas sem a necessidade de partilhar o mesmo espaço”, acrescenta a investigadora.

O projecto que envolve 25 instituições, quatro das quais portuguesas, recebeu seis milhões de euros da União Europeia, no âmbito da Segurança Alimentar Sustentável (Sustainable Food Security), do programa Horizonte 2020, com o objectivo de “combater a crise alimentar através da maximização do potencial dos sistemas alimentares à base de culturas negligenciadas ou subutilizadas”.

Apesar de ser um projecto “muito caricato”, onde todos procuram “valorizar as suas culturas, culturas muito pequeninas e desconhecidas associadas à alimentação humana e que são muito nutritivas, muito resistentes do ponto de vista agronómico, mas em que o seu potencial não está devidamente explorado quando poderia estar a contribuir para um melhor desenvolvimento da sua região e das comunidades em que se encontram”, até porque, no caso do chícharo, é uma planta que “capta algumas bactérias por simbiose, capta o azoto atmosférico, então não precisa de adubação azotada, e introduz no ciclo das plantas seguintes este mesmo azoto”, o Divinfood tem também uma forte componente social que procura envolver todos os actores desta cadeia de valor.

“Desde os agricultores, aos processadores, aos intermediários – neste caso os que o comercializam – e aos consumidores, porque a ideia é diversificar os sistemas alimentares fornecendo uma maior diversidade de produtos e, por outro lado, também ajudar os agricultores dando-lhes variedades mais atractivas do ponto de vista da resistência, ajudando-os a testar sistemas mais agro-ecológicos onde possam produzir uma cultura, mas de uma forma mais diversificada em conjunto com outras culturas, o que antigamente se chamava de policultura”, explica Carlota Vaz Patto, acrescentando que aquilo que pretendem é uma “reinvenção destes sistemas mais tradicionais de agricultura que se utilizavam aqui há uns anos em Portugal, mas de uma forma mais estruturada para facilitar a vida do agricultor e do qual eles se afastaram porque não eram práticos”.

A investigadora reforça que a testagem de novas combinações ou de leguminosas e outras formas de fazer a cultura conjunta possibilita a que o agricultor obtenha benefícios “quer económicos, por ter diferentes culturas em campo, ao mesmo tempo que é mais sustentável para o ambiente porque aumenta o número de plantas no ecossistema agrícola e, de alguma forma, aumenta a resiliência do próprio sistema para qualquer eventualidade inesperada”.

Assim sendo, a área social focar-se-á em novos modelos de negócio que valorizem a diversidade e que ajudem também os agricultores na parte mais económica até porque aprenderão, não só, a fazerem bem a sua cultura mas também a saber vendê-la.

No entanto, para que estas melhorias aconteçam, na primeira fase do projecto ocorrerá uma auscultação dos intervenientes de modo a se identificarem os problemas para os quais a equipa de investigadores proporá soluções, testando-as posteriormente.

O papel da ADECA

Na equipa portuguesa da Divinfood, composta por quatro instituições, a Associação de Desenvolvimento Integrado do Concelho de Alvaiázere (ADECA) terá um papel fundamental ao representar os agricultores, pequenos processadores e até mesmo consumidores.

“A ADECA é fundamental. Apesar disto ser um projecto que visa os agricultores, os processadores pequeninos e os consumidores, eles precisam de uma associação que os represente e como estão todos associados à ADECA tem toda a lógica. Sendo que a própria associação será de extrema importância nas questões mais burocráticas, ajudando os envolvidos nesse sentido”, frisa Carlota Patto.

Futuro da Divinfood em Portugal

Contudo, mesmo sendo este um projecto voltado para a Alvaiázere, a ideia é que depois esta “estrutura mais restritiva evolua para uma rede territorial e que possa ser levado para outras regiões do país onde existe a cultura do chícharo e que poderiam colaborar com Alvaiázere nesta rede mais territorial em que há uma maior partilha do que aqui aconteceu, de toda a inovação, e se é passível de ser replicada, ou não, em outras regiões. O ponto fulcral será Alvaiázere que, em princípio, deveria evoluir para uma rede territorial a nível nacional que pudesse envolver todas as pessoas que estão interessadas no chícharo”. A investigadora sublinha que se pretende uma estrutura mais sustentável que “se mantenha quando o projecto chegar ao fim”.

[NOTÍCIA DA EDIÇÃO IMPRESSA]


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