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NATÉRCIA MARTINS

A faquita

2 de Julho 2021

Fui criada com a minha avó e uma tia, irmã do meu pai. A minha avó já viúva e a minha tia solteira moravam numa casa grande: uma quinta com árvores de fruto que eram os nossos encantos. Tanto meu como do meu irmão, que também veio viver com elas e comigo.

Posso dizer que fazíamos as maiores tropelias dentro daquela quinta.

Subíamos às arvores. Fizeram-nos um baloiço na pernada de uma laranjeira. Aí vivemos grandes aventuras. Havia lá em casa um empregado (criado, na época), que nos fazia o baloiço voar e aí sentíamos que o céu ficava mais perto, tão alto subia o baloiço.

A minha tia à luz do candeeiro de petróleo contava histórias onde nós entrávamos também. A imaginação que ela punha nas histórias pareciam verdadeiras. Contou que havia uma mulher cujo marido andava num barquito de pesca. Aventurava-se no mar à procura de peixe que depois vendia. Eu, que nunca tinha visto o mar, imaginava o barquito a subir e descer as ondas. E, também não sabia o que eram ondas. Apenas imaginava muita água, muito mais que o rio que passava perto da nossa casa. Lá ao fundo, contava ela, uma cortina azul que separava o mar do céu. Tão iguais que parecia que um se fundia no outro. E eu com os olhos já a piscarem de sono acompanhava o barquito montado nas ondas.

Um dia o homem distraiu-se e passou a cortina para o lado de lá. Passaram muitos dias e a mãe e o filho sentados na areia à espera dele. Olhavam, afiavam a vista, mas o barquito não furou a tal cortina. Na cama sonhei com eles. Vi o mar como o imaginava. E as ondas. Também me dizia que o mar não tinha fundo.

As histórias da minha tia levavam-nos a imaginar o que se calhar nem existia.

E eu, pequena, sentada numa cadeira com as pernas grandes para poder chegar à mesa. É aí que a faquita tem o seu papel principal. Como chegou às mãos da minha avó não sei. Mas tinha o cabo de marfim amarelo. A folha de lata não cortava lá grande coisa, mas era a minha faquita! Comia com ela ao meu lado como gente grande, que tinham as deles. Estes tinham o cabo preto feito de corno. Coisa que eu odiava.

Quando fazíamos asneira lá se ia a faquita. Assim como, quando o meu irmão se lembrou de fazer um paraquedas, com um saco vazio de cimento atado ao pescoço. Lançou-se lá de cima da janela do primeiro andar. Valeu-lhe cair em cima de um monte de areia.

As histórias da minha tia nunca tinham fim. Pegavam-se umas às outras. Contou que uma grande baleia engoliu um pescador. Ele no escuro da barriga da baleia acendeu o candeeiro de petróleo, que era o que conhecíamos, e fazia lá dentro a sua vida como se estivesse em sua casa.

Passaram muitos anos. A minha tia, finalmente casou com um homem viúvo e foi morar para Lisboa. A minha avó morreu no dia dos meus anos. Em Dezembro.

O tempo foi passando. Cada um de nós rumou à sua vida.

Finalmente, conheci o mar. Era maior do que eu imaginava, mas olhando bem lá estava a tal cortina que separa o mar, do céu. Ambos são azuis e é aí que se confundem um com o outro.

Não sei se a mulher e o filho ainda lá estão à espera, sentados na areia, que o homem com o seu barquito, fure a tal cortina e venha ter com eles.

Quando vou perto do mar, olho bem para ver se eles ainda lá estão.

Mais anos se passaram. A minha mãe faleceu. Uns anos depois faleceu o meu pai. Já não subíamos às árvores e não havia o baloiço na pernada da laranjeira.

Eu e meu irmão fizemos as partilhas do recheio da casa da quinta grande.

Depois de dividirmos alguns “tarecos” abrimos uma gaveta.

Olhando lá para dentro exclamámos os dois ao mesmo tempo: A faquita!

Ali estava ela. Coisa sem valor monetário, mas muitíssimo valor para nós dois.

Tenho-a eu. Está junto do meu melhor faqueiro. Vou dá-la à minha neta porque sei como ela a vai estimar. E é assim que a vida se vai renovando. Ela um dia vai transmitir aos filhos dela como a faquita lá foi parar.


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