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NATÉRCIA MARTINS

Envelhecer

4 de Junho 2021

A velhice é a associação do que foi moldado no tempo pela experiência. Começamos a envelhecer logo que nascemos. Envelhecer é um fenómeno natural. A grande questão é como iremos envelhecer e não quando. É com esse pensamento que podemos mudar alguns hábitos e procurar manter a saúde física, mental e emocional.

Envelhecer é uma conquista. As nossas escolhas alimentares, ser sedentário ou não. Ainda controlar o stress.

Ser velho é o despertar dos afectos: casas, cidades, fotografias e objectos que nos contam segredos, casos e dramas numa trajectória feita de labirintos a que chamamos História.

Também as tradições e as crenças fazem parte do passado, embora sejam, nalguns casos, bem actuais.

Enquanto nova imaginei mil coisas para mim. Imaginei-me com mil amores, cabelos longos a esvoaçar ao vento. Imaginei, ainda, adulta, meia-idade, questionando as minhas escolhas, boas ou não, querendo mudança e estabilidade.

Mais tarde imaginei-me uma velha sábia.

As rugas no meu rosto contam a minha história. Nunca fiz o tão aclamado “lifting” nem fui a clínicas de estética.

Sou do tempo em que se acendia o fogão de lenha para fazer a sopa. A sopa de feijão e couves apanhadas ali na horta mesmo ao lado da cozinha. A panela a ferver com as batatas e cenouras à espera da chegada da horta.

As sardinhas assadas na fornalha do fogão que, de tão grande, aquecia a cozinha e também a casa. Sou do tempo em que se lavava a roupa no tanque e se punha a corar em cima da relva que ladeava esse mesmo tanque, enquanto as mulheres cantavam com a sua voz límpida as modas da época. Sou do tempo dos bailes no arraial da festa em que se dançava agarradinho com segredos ao ouvido. Tão bom esse tempo!

Ainda sou do tempo em que se contavam histórias de velhas bruxas e lobisomens e eu tinha medo quando à noite ia para a cama e sonhava que me vinham visitar à cama.

Sempre gostei, e ainda gosto, dos velhos e das velhas das histórias. Afinal também eu, hoje sou uma velha. Não gosto do termo idosa. Afinal sou uma velha com cabelos brancos e alguma sabedoria na cabeça. A velhice é uma etapa e um orgulho. Não sou idosa nem madura nem experiente. Sou avó. A minha cabeça foi moldada pelo tempo e pela experiência.

Não trocava tudo o que fui por um presente sem recordação.

Ser velha é perder os óculos e eles estarem mesmo ali pertinho, é não encontrar o dedal, na costura. É sentar-se na mesa no lugar principal. Ser velha é contar as histórias mil vezes, porque já não se lembra de as ter contado.

Hoje, os meus netos são o presente. Vão ser eles a comandar o mundo. Mas também irão chegar a velhos. Terão os seus cabelos brancos e as cabeças atulhadas de recordações.

Quero ser uma velha querida como o foram os velhos e as velhas das histórias que contei

Quando for, quando chegar a minha vez, quero ir tranquila, deixando a vida com um sorriso nos lábios.


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