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PAULO JÚLIO

O absurdo de um indicador!

23 de Abril 2021

A racionalidade da aplicação de um indicador estatístico nacional a um município é, desde logo, sob o ponto de vista matemático, altamente discutível. Quando se aplica a municípios com muito baixa densidade demográfica, deixa de ser discutível para passar a ser ridículo e, para quem tem de viver, investir e trabalhar nesses territórios, passa a roçar o revoltante.

Ao longo de anos, sempre “ficou bem” falar do Interior, do potencial, das oportunidades, mas realmente na maioria dos casos, constata-se um desconhecimento demasiado profundo sobre a realidade desses territórios.

A incompreensão ou o desconhecimento sempre geraram equívocos. Equívocos sobre a urbanidade que se mistura com a ruralidade, sobre o entendimento da sociedade formada por pequenas comunidades, aldeias ou vilas, que se espalham por um imenso território polvilhado de floresta desordenada, numa paisagem quase sempre ímpar, pura, mas desprezada.

Só pode ser este desentendimento que permite que nenhuma autoridade pública, a começar na Direcção Geral da Saúde, perceba que um indicador de 120 casos por cada 100.000 habitantes, aplicado a territórios de menos de 10.000 pessoas e com centenas de quilómetros quadrados, é um absurdo que torna ainda mais desigual, uma parte de Portugal que já tem de ser tão mais especial e competente, para vencer e se impor.

Se fizermos um exercício a um território como Penela, basta existirem 7 casos Covid – sim, 7 casos – para que esteja no vermelho, como agora se diz. Sete casos em 132 quilómetros quadrados de área, localizados numa aldeia ou duas, fruto de contacto familiar, condenam, ainda mais, pequenos negócios, restaurantes e estigmatizam gente que não merecia passar por mais essa vicissitude. Este é um pequeno exemplo de como somos governados.

Governados ou dirigidos por pessoas que ou não conhecem ou não querem conhecer e, que em ambos os casos, não se preocupam de ir aos detalhes de assuntos que influenciam a vida de milhares de pessoas. O problema de base não é o indicador que, com certeza, deve ter uma base científica quando aplicado ao País. A gravidade está em que no meio de tanto técnico, ninguém pare para analisar se esse indicador deve ser aplicável a territórios de densidade demográfica abaixo de 50-60/habitantes por quilómetro quadrado. É evidente que tem de haver um limite e que esse limite deve ser seguro porque é de saúde pública que se trata. Todavia, o que se passa em muitas dezenas de municípios de Portugal porque alguém decidiu que o controlo da pandemia deveria ser municipal, sem ter em linha de conta outros factores muito mais importantes como sejam os movimentos pendulares entre concelhos e densidade demográfica, é um absurdo nacional.

Não é possível construir boa democracia, uma sociedade em que os cidadãos participem e se interessem pela administração pública quando temos um Estado que se expõe desta forma. Quando se constroem indicadores municipais, estes não devem resultar de um conselho formado somente por investigadores e agentes de saúde. Um Estado que não se dá ao respeito já está ou ficará doente.


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