17 de Abril de 2021 | Quinzenário Regional | Diário Online
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PAULO JÚLIO

Debater o que interessa!

26 de Fevereiro 2021

Vivemos tempos em que a sociedade parece não querer discutir o essencial. A pandemia absorve-nos e a discussão tende a ganhar dimensão na dicotomia de quem é ou não é racista ou de quem é ou não é fascista. Na sequência debate-se as etnias, ciganas e outras, há deputados da Assembleia da República que, nalgum espasmo idiota, propõem retirar símbolos, estátuas ou mesmo monumentos ligados aos descobrimentos e à colonização feita pelos portugueses daqueles séculos, como se a nossa história se possa apagar, em nome de umas exclamações inflamadas que decorrem mais de 500 anos depois dos factos. Um dia destes, haverá quem proponha um novo hino nacional ou até mesmo uma nova bandeira porque aqueles símbolos da nossa pátria são fonte de vergonha para alguns.

Depois, também percebemos que há pessoas, supostamente cultas, que nos dizem que o racismo só tem uma via, que só os brancos são racistas, as outras raças não o são. Esta falta de mundo (real) para além de leituras de (admito) muitos livros, no sofá confortável lá de casa, e dos “debates conferências” do politicamente correcto, faz com que a nossa sociedade se desgaste nestas dicotomias, em discussões acesas  e sem nenhum bom senso ou tolerância. Esses sim, os valores necessários para haver menos racismo, menos xenofobia, mais solidariedade, de modo a evitar estes caminhos que só interessam a minorias. Claro que há pessoas racistas (brancas, pretas e amarelas) e pessoas xenófobas, cujo pensamento não é saudável para o progresso da sociedade.

Portanto, sim, esses problemas têm de ser resolvidos na base, as políticas têm de actuar no sentido de os resolver, sem, no entanto, deixar de fazer o correcto diagnóstico. Enquanto discutimos isto, não discutimos modelos de desenvolvimento da nossa sociedade e do nosso Portugal que teima em não acertar o passo. Confundimos sucesso político com excedente orçamental do Estado que sendo bom, não nos resolve nada estruturalmente. Os níveis de educação e cultura são essenciais para construir uma sociedade mais desenvolvida, conjugados com outros valores que, por vezes, até parece mau falar deles em público. Falo do trabalho, do esforço, da dedicação, da inovação, da criação de valor e capacidade de arriscar.

Essa linguagem não é muito querida de uma certa “esquerda”. Mas, sem esses valores devidamente incorporados na sociedade, seremos um país mais pobre e com menos oportunidades. E um País com menos capacidade de gerar riqueza, com demasiada gente a depender do Estado e das suas funções (porque se tem a ideia de que lá, no Estado, até se trabalha menos, em determinadas funções), é um País menos competitivo, mais rígido e sem o futuro que todos, sejam de esquerda, centro ou direita, gostaríamos de dar aos nossos filhos.

Em qualquer caso, é preciso discutir o essencial porque, independentemente do que a nossa qualidade de vida evoluiu nos últimos 30 ou 40 anos (e foi muito) continuam a existir demasiados focos de pobreza e de miséria, onde a educação não consegue chegar e moldar para haver o tão afamado elevador social. É preciso incluir, mas também é preciso exigir e é preciso que não reine o facilitismo porque nesse caso o esforço das ajudas necessárias não serão mais do que isso, simples ajudas. Um País mais bem preparado, mais aberto, mais crítico e mais participado, onde haja menos mesquinhez e mais valorização de quem realmente acrescenta na nossa sociedade, não julgando o todo pela parte ainda que pequena.

Estes valores deveriam ser mais debatidos com gente que tenha mundo real que saiba o que é ser professor, ser médico, ser juiz, ser um simples administrativo, agricultor, um empresário pequeno ou grande. Esses todos, incluindo todos os que constroem Portugal não podem deixar de ter voz para tirar Portugal deste caminho da cauda da Europa. Porque é possível, ainda. Talvez leve uma ou duas décadas, mas uma vez no caminho, acredito que não voltaremos para trás. Para isso, não nos deixemos levar para os debates que só nos dividem e que não nos levam a nenhum lugar melhor. Alguns, porventura, acham que podem ganhar ou até vêem aí alguma boa causa, mas é realmente uma minoria que não pode contaminar um povo. Um povo que foi atrás do seu destino, há alguns séculos atrás e que marcou o mundo. Com erros também com certeza, mas temos de ter orgulho por aquilo que somos, por aquilo que fizemos e construímos ou, sem esse orgulho na nossa história, será difícil construir futuro.


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