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NATÉRCIA MARTINS

Tia Verde Água, os dez anões

9 de Novembro 2020

Esta história foi-me contada vezes sem conta.

A tia Laura com a sua paciência infinita contava-a nem sempre igual e aí é que estava o encanto da questão.

Morávamos na aldeia onde não havia nada. Nada de nada, mesmo. A noite de Inverno chegava cedo. Havia que entreter os “cachopos” que não paravam nas brincadeiras de corre-corre.

Havia paciências que não eram mais que figuras recortadas de uns rebuçados que na época apareceram. Colavam-se em cartão e depois de uns cortes em triângulo também nos entretinham. Jogávamos às cartas. Ao burro, claro! A batota já se fazia. Escondíamos algumas cartas entre os joelhos. De vez em quando o cheiro a queimado vinha da braseira situada debaixo da camilha. Era uma carta que se escapava para cima das brasas. A minha avó sabia quem era o autor, mas fingia não saber.

Quando a dita carta ardia mais que o suposto íamos buscar outra a um outro baralho, também ele já incompleto. E mais. Quando já não havia no outro baralho, recortávamos uma nova carta em cartão, que se trazia das caixas velhas de sapatos e pintávamos as “pintas” com lápis de cor. E também fazíamos cartas “sobresselentes” que também iam jogar. Era, por isso, que havia 4 ou 5 cartas iguais. Todos sabíamos, mas o jogo fazia-se na mesma.  Ficava uma desgraça, mas servia. A cola era feita com farinha de trigo e água do cântaro.

Eu e meu irmão sempre gostámos de ouvir contar histórias. E a minha tia fazia isso como ninguém. Dava-lhe a magia dos contos inocentes de outrora. Este era um deles. Contada à luz do candeeiro de petróleo. Não se via lá grande coisa, mas servia para o efeito.

O autor deste conto foi Teófilo Braga. Mas todos sabemos que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto. E se calhar era o que ela fazia.

O conto é simples e traduzia como se vivia antigamente.

Tratava- se de uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido. Era desleixada com as arrumações e com a limpeza da casa. Fazia o jantar quando lhe apetecia, isto é, tarde e más horas. Como não tinha água em casa precisava de a ir buscar à fonte e lá ficava na conversa. O marido não gostava e então ralhava muito. A mulher andava muito triste com a sua sorte.

Foi visitar uma vizinha que diziam ser bruxa.

A vizinha disse-lhe que mandava lá para casa dez anõezinhos que a ajudavam. Mas ela teria de fazer também o seu trabalho com eles.

Ela foi para casa muito contente. Arrumava a casa. Ia à água, fazia a cama e tratava do gado. Tudo isto com a ajuda dos anõezinhos.

O marido chegava do trabalho e via tudo feito e arranjado e assim ficava pasmado de ver a mulher tão bem arranjada.

Então, ela, foi a casa da Tia Verde Água agradecer a ajuda dos anõezinhos que ela nunca viu. Foi quando a mulher lhe disse que os anõezinhos eram os seus dedos. Nada mais!

A mulher entendeu que sem trabalho nada se consegue.

Histórias do século passado.

Eram assim os nossos serões numa aldeia encravada na serra. Já falei aqui muitas vezes dessa mesma aldeia onde vou poucas vezes pois a vida empurrou-me para outros lados.

A nossa terra não é onde nascemos, mas onde passámos a juventude e fomos felizes mesmo sem nada de nada como era ali.

Isto não significa que o tempo não avance e hoje já nada seja igual. Os tempos mudam e com ele as pessoas também mudam. Já não se contam histórias de encantar onde as nossas mentes reproduziam o conto à nossa maneira de crianças. Os pais têm mais que fazer e as histórias são contadas em vídeo na televisão.

Outros tempos!


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