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Gonçalo, o enólogo que quer promover as Terras de Sicó

21 de Março 2020

Gonçalo Moura da Costa é bairradino de “gema”, mas a sua vida deu algumas voltas e agora, aos 37 anos, confessa que as Terras de Sicó são o seu território do coração.

É nesta região que se dedica àquilo que mais gosta: a Enologia. É aqui que coloca a sua arte em prática e diz dar tudo o que tem de si em prol do desenvolvimento de um território no seu todo.

Ser enólogo, no entanto, não foi algo que quisesse ser desde sempre. Recorda-se, aliás, que a sua ideia inicial seria seguir algo relacionado com Medicina. Mas a ligação ao campo e ao mundo rural que vinha dos seus tempos de criança, falou mais alto.

Cresceu no meio da vinha e do vinho, com um avô que produzia cerca de 30.000 litros de tinto e branco, todos os anos. A envolvência nesta área era já enorme. “Sem esquecer a minha vizinha Lurdes, ligada à parte agrícola e criação de animais, que me ensinou muito da parte humana que envolve quem se dedica à agricultura”, conta, emotivo.

Caminho alternativo

Como a Medicina não se proporcionou na vida deste jovem, decidiu concorrer à Escola Superior Agrária de Coimbra para o curso de Engenharia Agropecuária. Algo ligado à ruralidade que tanto gostava e que tão bem conhecia. “O primeiro semestre foi traumático para mim. Detestei aquele curso e pensei mesmo em desistir. Falavam apenas da parte animal e eu não me identificava com nada daquilo”, confessa o engenheiro.

Ainda assim, decidiu continuar até ao segundo semestre, fase em que frequentou algumas cadeiras ligadas à Agronomia. Depressa percebeu que era isso que queria para si. “Queria dedicar-me à parte vegetal”.

O curso em Coimbra tem as duas vertentes, animal e vegetal, e, portanto, se era mesmo aquilo que queria para o seu futuro tinha de o concluir naqueles moldes. E conseguiu. Para terminar o curso, como seria de esperar, optou por um estágio curricular na área vegetal. “Durante o meu estágio estudei sobre protecção de plantas nas vinhas das Caves Messias. Ali tive uma noção muito mais abrangente sobre aquilo que era uma cultura que eu tinha estudado e no meio da qual cresci”, explicou Gonçalo Moura da Costa.

O caminho académico estava concluído com sucesso. Agora era altura de procurar aquilo que realmente o fascinava naquele mundo agrícola. Não pensava, necessariamente, em ir trabalhar para uma adega e quando surgiu a possibilidade de entrar para a Vinisicó – Associação de Vitivinicultores das Terras de Sicó não hesitou. “Achei que estando a trabalhar numa associação iria ter uma variação muito maior de trabalhos e vertentes, muito mais ligados à ruralidade. E assim iniciei a minha profissão como enólogo, há 15 anos, numa região onde nada do que conhecemos hoje em dia existia, apesar de continuarmos muito atrasados em relação a outras regiões vitivinícolas”.

Actualmente está como consultor naquela associação, onde continua a realizar um importante trabalho que concilia com o seu emprego a tempo inteiro como enólogo residente da Fundação ADFP (Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional), em Miranda do Corvo.

O que faz um enólogo afinal?

A ideia de que um enólogo é somente um provador de vinhos não poderia estar mais errada. Faz parte do seu trabalho, é verdade, mas não é, de longe, segundo Gonçalo Moura da Costa, o mais importante em todo o processo desenvolvido por um profissional desta área.

A Enologia é uma ciência que estuda tudo o que está relacionado com a produção e conservação de vinho. Desde o plantio, a escolha do solo, a vindima, as fertilizações na videira, quando, como e que quantidades e produtos fitossanitários devem ser aplicados e, posteriormente, todo o processo de produção e envelhecimento do produto, até ao engarrafamento. “O que faço é um acompanhamento exaustivo e permanente de tudo o que influencia a vinha até chegar à garrafa”.

Como consultor o trabalho começa pelo apoio administrativo dado aos produtores sobre o que é a vinicultura e a produção de vinho, tendo em conta o Instituto da Vinha e do Vinho que tem como objectivo adequar a organização corporativa aos princípios e regras da Organização Comum do Mercado.

Para além dessa parte mais burocrática, um consultor realiza a interpretação de análises ao vinho; interpretação de dados biométricos para se perceber como está a vinha e de que forma vai avançar; pareceres sobre intervenções necessárias, desde podas a tratamentos fitossanitários. Depois da uva entrar na adega, o consultor deve acompanhar, também, todo o processo.

Quanto a Gonçalo Moura da Costa, este afirma trabalhar a Enologia de forma diferente. “Não faço uma Enologia purista em que o meu foco seja apenas a vinha e o vinho. O meu foco é sempre a ruralidade, o desenvolvimento do território. Gosto muito do vinho e da vinha, mas gosto muito mais de perceber que através disso podemos atrair e fixar pessoas e conseguir promover aquilo que de melhor temos no território”.

Desenvolver a região

Para este profissional é necessário aproveitar todos os investimentos possíveis que existem na região Terras de Sicó, de forma a promover o seu potencial rural. “Não são só os produtores que têm de fazer este trabalho de dar a conhecer, as entidades públicas também o devem promover”, refere, criticando, de certa forma, quem está no poder da região.

“Nem existe uma única placa informativa de que entrámos ou saímos da sub-região de vinhos Terras de Sicó. Quem nos visita não fica a saber que estas vinhas pertencem a uma sub-região tão distinta. E não é só com os vinhos, é com todos os produtos que poderiam ser uma mais-valia para atrair pessoas. Não aproveitamos isso”, refere o enólogo que deixa, ainda, um conselho para quem está à frente das localidades desta região: “basta olharmos para as regiões à nossa volta e vermos que vendem as terras através dos vinhos, como é o caso da Bairrada, do Dão, entre tantas outras”.

Unir o turismo aos produtos endógenos seria uma forma de captar pessoas. Haveria mais motivos para os turistas visitarem a região, uma vez que teriam uma maior oferta “não só para ver mas também para saborear”.

Importante é, também, o facto de nesta região existir uma viticultura diferente, que já não se observa em muitas outras regiões do país. Algo que se prende, essencialmente, com o facto de ser uma vinha Heroica, ou seja, uma vinha de rendilhados, pequena, muita dela ainda em taça, sendo tudo feito praticamente à mão.

Conforme explicou Gonçalo Moura da Costa, nesta região o vinho nasceu com a própria terra, com o solo e com o clima, tendo, ainda, a característica de ser produzido de acordo com aquilo que se come nesta zona do país. “Os nossos vinhos encaixam perfeitamente com a nossa chanfana, o cabrito, o queijo, os enchidos. São vinhos pujantes, não muito ácidos. E os brancos são muito frescos e ao mesmo tempo muito gordos”.

A sub-região vinícola Terras de Sicó, apesar de pouco conhecida pelo público consumidor, é já bastante reconhecida em concursos nacionais e, até, internacionais.

O primeiro prémio internacional foi em 2009, quando um dos vinhos Terras de Sicó conquistou uma medalha de prata num concurso em Bruxelas. Muitos se seguiram, destacando-se a medalha de ouro que distinguiu um vinho desta sub-região num concurso mundial, a que concorreram mais de 3.000 vinhos. Este foi um ponto de viragem importante que motivou a região. “Temos cerca de 55 medalhas ganhas em concursos nacionais e internacionais. Isto é mais do que prova de que somos bons a produzir vinhos. Mas de que nos serve isso se ninguém nos conhece?”, questiona o enólogo.

Enologia com futuro

Apesar de todas as dificuldades que a região tem enfrentado no que à Enologia diz respeito, Gonçalo Moura da Costa acredita que esta é uma área com futuro, contrariamente ao que se possa pensar.

A produção de vinho é algo ligado à ruralidade, mas que tem tido novos produtores interessados não sendo uma área que se encontre envelhecida, pelo menos na sub-região Terras de Sicó.

“Existem, de facto, produtores cuja continuidade será difícil, mas temos muitos outros que estão agora a surgir na região. Não acredito que estejamos a decair. Vai haver um ponto de regeneração, mas haverá continuidade”, acredita o enólogo que confessa ser um apaixonado pelo que faz.

SÓNIA PEREIRA


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