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Natércia Martins

O tempo

6 de Dezembro 2019

O tempo não pára. O tempo corre sem darmos pela sua passagem.

Chove, faz sol ou mesmo neblina ou ainda nevoeiro. Mas o tempo não pára mesmo na sua inexorável passagem por nós.

Reportamos ao tempo que já passou, da avó viúva e tia solteira, o cão Tinker que nos acompanhava nas brincadeiras como se fosse um de nós.

O cão preto que esperava o meu pai e conhecia ao longe o trabalhar do automóvel. Os castigos por coisas de somenos importância, mas a importância no tempo antigo valia-nos o quarto da costura presos com linha de alinhavar atada a uma perna. Não se quebrava a linha, não saíamos de onde nos punham. A minha Lálá. Boneca que me deram. Era grande de papelão prensado e pintada com cores quase reais. Acompanhava – me nesses castigos e era a minha confidente.

O quarto do fundo da escada, que não era mais que uma pequena dependência da casa com um anexo, ao fundo onde se guardavam as talhas dos chouriços mergulhados em azeite. Por ali também havia outra “tralha” em que não nos era permitido tocar. Ah! A escada de pedra lá fora.

Ali passava em dia certo o moleiro com os burros carregados de foles com o grão a caminho do moinho para transformar em farinha. O padre António, muito velho sentado na charrete e a manta velha e escura a cobrir os joelhos. A manta, a mula e a charrete tão velhos como o velho padre.

O colégio onde os rapazes tinham o seu recreio. As raparigas no outro ao lado.

Os bailes que se faziam no ginásio. Olhando para trás os rapazes que nos “enchiam o olho” hoje são tão velhos como eu.

O Lagar de azeite, a fornalha incandescente parecendo o inferno. O Abílio Café que nos deliciava com as suas histórias inventadas talvez no momento. Como o pisar as azeitonas e o azeite a correr na fonte, tudo era devagar. Como se não houvesse tempo.

Mas o tempo não volta atrás. Ah! Se voltasse … Tantas coisas que não se faziam.

Se tenho saudades? Pois claro que tenho!

Tenho saudades do tempo dos meus pais vivos. Do amolador de tesouras que passava com a mesma música e o pregão de amolador. A ribeira com as pedras onde as mulheres lavavam e cantavam ao mesmo tempo. A relva ali mesmo ao lado onde colocavam a roupa, alguma bem íntima, a corar ao sol.

Tenho saudades da vindima com as uvas brancas que brilhavam ao sol. O fogão de lenha ou “borralho” com os potes pretos, barrigudos, de ferro a ferver nas brasas incandescentes.

Tenho saudades das filhós, no Natal, amassadas em grandes alguidares e depois a ferver em azeite. O seu cheiro nunca me saiu do nariz.

Saudades do tempo em que eram muitos à mesa e um a um foram rumando aos seus destinos.

O tempo! Sempre o tempo que tudo muda e transforma.

Hoje abri o baú. As fotografias levaram – me ao tempo em que me picava nas silvas para colher amoras. Ao tempo em que corria atrás dos patos gansos só pelo prazer de os ver a correr.

Tenho saudades do som dos alcatruzes que com o peso da água e no passo vagaroso da mula, traziam a água com um chiar característico de um calabre ferrugento.

Hoje abre-se a torneira e a água jorra sem pensarmos como era difícil, noutro tempo, trazê – la no cântaro de lata, à cabeça. Ao tempo em que subia à laranjeira do jardim para colher uma laranja que na maior parte das vezes nem comia. Ao tempo da minha primeira escola onde dei aulas a meninos que hoje são grandes, mesmo pais ou avós. Ao tempo em que conduzi o meu primeiro automóvel.

O tempo do qual não me arrependo de nada do que fiz e talvez voltasse a fazer.

É por isso e muito mais que não podemos agarrar o tempo porque ele é como uma mão cheia de areia que se escapa por entre os dedos. Ou ainda, parafraseando António Gedeão: O Mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.


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