12 de Dezembro de 2019 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Natércia Martins

Aquela máquina

8 de Novembro 2019

O meu pai chegou a casa, colocou os livros em cima da mesa e disse: – Comprei aquela máquina!

A minha mãe levantou os olhos da costura que tinha nas mãos, olhou o meu pai, mas não disse nada. De certeza, coisa boa não seria. Ela era pouco dada a novidades, principalmente vindas do marido.

Ele voltou a dizer: – Trouxe aquela máquina!

Então, mais para fazer a vontade, levantou-se e foi ver. Era um automóvel. Morris, pequeno e preto. Por azar, ou não, tinha a matrícula AC. Logo lhe chamaram: Antes de Cristo.

Ainda meio desconfiada mirou de todos os lados, abriu uma porta, depois a outra, franziu a testa, coçou o alto da cabeça e sem dizer mais nada declarou:

– Parece-me bem! Já não precisamos ir a pé como fazíamos.

Sim. Naquele tempo íamos a pé até ao autocarro. Ainda era algum caminho. Levávamos cerca de meia hora.

Mas aquela máquina foi uma boa aquisição. Levou-nos numa primeira viagem a Fátima. Eu teria uns doze ou treze anos. O meu irmão mais novo encaixava-se em qualquer lado. A Fátima fomos como “sardinha em lata”. Então foi assim: Ia a minha avó Amélia, a minha tia Laura, eu, o meu irmão, a minha mãe e o meu pai. Não se desconfiava que iríamos ter cintos de segurança uns anos mais tarde. Mas o carrinho depois de muito andar, envelheceu!

O meu pai, professor no colégio, não se atrapalhava às primeiras. Quando o motor não queria “pegar” os alunos empurravam até ao cimo da ladeira comigo e ele lá dentro. Depois vinham mais ou menos pendurados até ao fundo da ladeira numa verdadeira galhofa. Para eles era divertido. Eu encolhida lá dentro não lhe achava grande graça. Ah! Para eles era uma verdadeira festa.

Mas os anos passaram. Cresci. O meu irmão também. Cada um de nós rumou às suas vidas noutras instituições de ensino. O meu pai continuava a dar as suas aulas no colégio.

Outos automóveis passaram pelas suas mãos, mas mais nenhum foi “aquela máquina”.

Quando, passados uns anos, tirei a carta de condução passei a conduzir eu os carritos do progenitor. Até que um dia… estacionada à porta da cozinha, estava a verdadeira máquina! Ora se foi!

Um 2 Cavalos! Cinzento, lindo! Carinhosamente baptizámos de Latinhas. Aquilo era mesmo só lata! O que ele aguentou! Conduzido por mim… no início de ter carta de condução! A primeira vez que o levei para a escola foi uma verdadeira aventura.

Tinha mudanças. Só tinha três e marcha atrás, alavanca no volante. Capota de lona. Sem blindagem por baixo. Se firmássemos a vista, víamos o alcatrão da estrada. Um tapete colocado no chão era o único luxo.

Uma vez vinha com o meu pai e num dia de calor medonho, uma cobra estendia-se a receber todos os raios solares. Passei por cima. Olhei pelo retrovisor e não vi a cobra, que pensava ter atropelado. Qual quê? O meu pai, sem muito alarido, disse-me para olhar para baixo. Parei e a cabeça da cobra já se avistava junto ao acelerador, ou nos travões, ou na embraiagem. Não sei. Saí a correr, mas o trauma da cobra nunca me passou. Nunca mais atropelei nenhuma.

Numa outra vez ia eu na estrada e a minha mãe disse que não queria ir pela principal. Iríamos pela secundária ali ao lado. Sem olhar bem, guinei para onde queria ir. Resultado: Saltei uma barreira com a minha mãe a gritar que nos íamos matar. Mas não matei ninguém e outras aventuras se seguiram E que aventuras!

Aquela máquina, uma verdadeira máquina que morreu de forma inglória de encontro à parede de um vizinho e comigo lá dentro.


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