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Natércia Martins

Conta-me como foi

31 de Agosto 2018

Manuel é meu neto. Rapaz ainda pequeno mas muito curioso de tudo o que o rodeia. Gosta de saber o que se passou na vida de cada um de nós. O antigamente, palavra que ouve tantas vezes.

Antigamente brincava-se na rua, andava-se de bicicleta, lavava-se a roupa no rio e mesmo a comida era feita no fogão de lenha. Antigamente, sempre o antigamente a perseguir aquela pequena criatura.

Uma tarde de sol levantou-se da cadeira, pousou o Iphone que tinha à frente e veio aninhar-se no meu colo.

– Avó, como era antigamente?

Não percebi logo a pergunta.

– Afinal o que queres saber de antigamente?

– Como vivias. Onde moravas. Como foi a tua infância. Conta-me como foi.

Respirei fundo. Tudo tão longínquo. A aldeia no Portugal profundo, onde não havia electricidade e água nas torneiras.

Podia ser? Claro que podia!

Contei-lhe que morava com a minha avó e o meu irmão. Era uma quinta com árvores de fruto que escalávamos e transformávamos em castelos com piratas e salteadores.

Andávamos pela quinta acompanhados do cão que não nos largava. Brincava como se nos entendesse. Tivemos vários cães. Uns mais bonitos que outros, mas todos alinhavam nas nossas brincadeiras.

Havia um que tinha medo da trovoada. Aos primeiros relâmpagos fugia desalmado e escondia-se sempre debaixo de uma das nossas camas. Íamos procurá-lo. Lá estava ele.

Na quinta havia toda a espécie de animais. A mula que puxava a carroça. Andávamos em cima da carrada como se um poleiro se tratasse. Ninguém se preocupava se caíamos. Dentro do pinhal sabíamos onde as perdizes tinham os ninhos e espantávamos os pequenos perdigotos. Um dia encontrámos um ouriço-cacheiro. Tinha picos no dorso. Primeiro ficámos com medo que nos mordesse. Olhou-nos espantado e mostrou os dentinhos afiados entretido a roer uma maçã vermelha. Deu dois passinhos pensando que lhe roubaríamos o petisco. Claro que não. Sentámo-nos numa pedra a observar. Acabada a refeição, levantou a cabeça e numa pequena corrida subiu pela perna das calças do meu irmão e aninhou-se lhe no colo. Era um ouriço bem-disposto.

O candeeiro de petróleo com a luz amarela e a tremelicar era a única fonte de iluminação.

A minha avó tinha uma imaginação fantástica. Contava “estórias” até a nossa cabeça cair de sono. Já na cama sonhávamos com os heróis daquelas “estórias”.

A comida feita no fogão de lenha enorme instalado na cozinha. A panela da sopa era muito grande aos nossos olhos de crianças. As couves, as batatas, as cenouras colhiam-se na quinta. A água tirada do poço com a picota ou cegonha. Uma tarde, com a minha pouca força, e querendo experimentar, caí desamparada lá para dentro. Uma molha e um banho forçado.

– Avó! E era assim que viviam?

Pois era! As notícias eram transmitidas num rádio a pilhas que o meu pai comprou na feira.

A escola também não tinha nada de novo. Não havia passeios escolares e tudo o que sabíamos era procurado nos livros que iam passando de irmãos para irmãos e depois para vizinhos.

A tabuada era um bicho-de-sete-cabeças. Memorizada e perguntada pela professora todos os dias. Decorávamos rios e serras que nunca vimos. Os caminhos-de-ferro onde imaginávamos os comboios como monstros de ferro a vomitar fumo pela chaminé na máquina lá à frente da composição. Tínhamos visto o desenho num livro de histórias.

Abriu os olhos de espanto.

– Era assim?!

Saiu-lhe uma expressão: Como vocês eram atrasados!


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