7 de Dezembro de 2022 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Paulo Júlio

Nada mudou, um ano depois!

15 de Junho 2018

Estamos em Junho, apesar da meteorologia nos brindar com chuva e temperaturas de Fevereiro. Passou um ano sobre a tragédia dos incêndios de Pedrogão e sobre um dos momentos mais tragicamente marcantes da nossa história recente. Morreram várias dezenas de pessoas apanhadas de forma traiçoeira pelo incêndio naquele dia de temperaturas altíssimas, de matos secos e muita vegetação por limpar. Tudo numa região que ao longo de décadas foi perdendo gente que, por sua vez, foi à procura de trabalho. Muitos para Lisboa, muitos para vários países europeus, todos por falta de oportunidades.

Foi preciso a tragédia, e não o incêndio, para que finalmente muitos começassem a discutir o assunto destes territórios sem pessoas ou com poucas pessoas, cheios de floresta desordenada e sem cuidados. Passou um ano.

O tempo serviu basicamente para reconstrução da maioria das casas ardidas, uma pressão mais consciente sobre a limpeza das florestas e, desta vez, com menos alarido, uns alugueres de helicópteros por ajuste directo, dada a urgência e o interesse público. Tudo misturado com avisos presidenciais sobre uma eventual terceira tragédia. Sim, porque em Outubro, apesar de Junho, tivemos outra.

Não é o momento para ajustar contas políticas, mas, num País com mais massa crítica e menos porreirismo, o Governo teria caído. Sim, o Governo, e não uma Ministra que só caiu porque, mais uma vez, o Presidente se insurgiu. Mas, não é sobre isso que quero escrever.

Quero escrever sobre as causas maiores, as causas estruturais. Sobre o dito Interior que, agora, tem um pouco mais de importância social e cívica. Todos os que por aqui ou por ali trabalham ou vivem, percebem que nada mudou, a não ser algum alarido e umas reuniões, com os mais altos signatários do Estado, mais frequentes. Não há, que eu perceba, uma única medida política de fundo. Sim, porque limpar florestas, não é uma medida de fundo. Sim, reforçar equipas de combate a incêndios, não é uma medida de fundo. Nada. Um ano depois, há nada.

Às vezes, pergunto-me porque é que não se consegue, mesmo em pressão social, mesmo depois de desastres como os que aconteceram, fazer algo mais do que uns grupos de trabalho para dar umas ideias que, na maior parte dos casos, estão gastas de tanto serem faladas ou de estarem escritas em diagnósticos ou diagramas SWAP municipais ou intermunicipais ou, mesmo, regionais.

Dirão os mais puristas que aquela de aumentar vagas nos Politécnicos do Interior foi uma medida. Eu refiro-me a medidas estruturais que possam mudar a vida destas comunidades. É certo que se abriram uns programas para as zonas afectadas cujas decisões continuam a demorar muitos longos meses, à velocidade da burocracia ao invés da velocidade da sua necessidade.

Em regiões como estas, há investimentos simples que poderiam facilitar mudança, para além de eventuais benefícios para quem trabalha e vive. A realidade nos dias de hoje, é que as empresas industriais com potencial empregador têm dificuldade em contratar pessoas. Não existe uma rede de transportes públicos decente que ligue os vários municípios, com qualidade e regularidade, obrigando a que as pessoas, se vierem trabalhar para uma dessas empresas, tenham de utilizar automóvel, onerando os seus custos de forma desproporcionada.

A síntese é que, mesmo dentro da região, não há mobilidade. A síntese é que não havendo pessoas, não há desenvolvimento económico, formando-se um ciclo vicioso que afecta também as empresas de maior dimensão. Os centros urbanos mais próximos onde poderá haver algum desemprego, como Coimbra, Leiria ou Castelo Branco estão completamente “desligados” destas áreas mais periféricas. Quem pensa nisto? De que adianta haver uns desejos de atracção de empresas, se depois não há mão-de-obra disponível?

Esta pode ser a história da “pescadinha de rabo na boca”, mas é sobretudo a história de populações desprotegidas que, em rigor, continuam à espera, um ano depois. É também a história de populações que não têm voz porque se contentam com pouco, porque de tão habituadas a pouco terem, quase qualquer coisa serve.


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