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Natércia Martins

A menina dança?

4 de Maio 2018

Mudam-se os tempos e a maneira de ser de um povo também. Tudo muda.

Hoje, já com esta idade e com netos que dançam umas coisas esquisitas, que de dança do meu tempo tem muito pouco. Outros tempos!

Hoje recordo como eram os bailes do meu tempo. Melhores? Piores? Evoluíram. Nada mais que isso.

Sempre gostei de dançar. Os bailaricos que se faziam no salão dos bombeiros tinham fama de bons. Apareciam raparigas e rapazes de todo o lado. Primeiro enfeitava-se a sala com bandeirinhas coladas num fio de sisal. Pregavam-se nas paredes, muitas vezes presas nos retratos dos fundadores que pregados na parede não refilavam com a ousadia.

Não tínhamos outra sala que conviesse para o efeito. O salão dos bombeiros era outra coisa.

No dia marcado e o “ conjunto” já no palco ainda se afinavam os instrumentos. Era a moda do cabelo cortado à “ Beatle” E os músicos faziam gala disso.

Aquilo é que eram bailes!

A pergunta era sempre a mesma:

– A menina dança?

Quando o rapaz agradava, o par rodopiava ao som das músicas da época.

Usavam-se saias plissadas e estas faziam roda. Uma roda que ajudava a dança. Que lindo!

Algum rapaz mais tímido ficava perto do “buffet” de copo na mão. Outros ficavam por ali a deitar o olho e ver quem dançava bem. Depois ia sorrateiro convidar a uma dança. Já tinha visto o que queria.

Junto à parede as mães afiavam a vista a vigiar não fosse algum mais atrevido. E havia por lá alguns bem atrevidos. Dançava-se um tango, uma valsa ou mesmo um swing bem coladinhos ao par. Devagarinho. Bem devagarinho. Quase sem sair do lugar. Quando aparecia um slow. Isso é que era! Os rostos coladinhos. Só assim é que valia a pena porque com o entusiasmo da dança e às escondidas lá ia um beijinho. Sabia bem, embora se fingisse que isso era um grande atrevimento.

Nunca me aconteceu um “ banho de cadeira”. Sabem o que é? As menos habilidosas ficavam sentadas o tempo todo. Não dançavam. Ninguém as ia buscar.

Sim. Nenhuma rapariga se atrevia a dar o primeiro passo. Eram sempre eles.

Também havia os bailes das “sopeiras” onde os rapazes iam. Esses não eram nos bombeiros. Quase sempre o animador era um empregado da minha avó que tocava concertina, na eira do Xico Sapateiro, que era taberneiro e tinha duas filhas em idade de casar.

Não havia “buffet” mas havia a tasca que servia copos de vinho. A mulher não tirava os olhos das filhas e dos seus pretendentes. Igual ao que se passava no salão dos bombeiros. As mães eram iguaizinhas.

As meninas também usavam saias plissadas e blusa branca. Havia que parecer bem. E rodopiavam, rodopiavam lançadas no calor da música da concertina, mais ou menos afinada.

Em tudo igual ao que se passava no salão dos bombeiros, que me deixou tantas saudades, tantas saudades. Ninguém pode imaginar. Só gente que na minha idade passou pelos bailes no salão dos bombeiros.


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