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NATÉRCIA MARTINS

O meu pai

6 de Fevereiro 2018

Se o meu pai fosse vivo faria em Abril a bonita idade de 106 anos.

Morremos porque morremos. É a lei natural da vida e todos, sejam pobres ou ricos seguiremos esse caminho.

Era um homem grande, e com um coração do tamanho do mundo. Apesar disso eu tinha medo dele. É natural, quando a infância não se faz com uma mão a passar-nos no rosto ou a secar as lágrimas de um qualquer desgosto. Não fui criada com ele, mas em casa da minha avó. Mal o via.

Passei a morar com os meus pais quando a minha avó morreu.

O meu pai era austero, ou pensava que era. Tinha uma forma de vida que hoje seria absurda. Habilidoso de mãos. Um pedaço de madeira transformava-se num objeto, tal como uma cadeira ou gamela, quando a do uso se estragava e não havia outra para amassar a broa.

Tinha um barracão só dele. Guardava aí as ferramentas, como serrotes, plainas ou madeira.

Um dia procurou um dos martelos que lhe dava mais jeito para o trabalho. Uma galinha foi pôr os ovos em cima desse martelo. Esperou que os pintos nascessem e só depois concluiu a obra.

Era adepto de um bom pequeno-almoço. Este era constituído por uma posta de sável de escabeche em cima de uma fatia de pão de trigo. Mas não era um escabeche qualquer. Nem um sável qualquer.

Como morávamos perto do Rio Zêzere era daí que saíam bons sáveis, fataças e tainhas. Quando os achigãs chegaram parte destes peixes desapareceram. As barragens também contribuíram pois em parte transtornaram a desova destes. Só os mais fortes sobreviveram.

Mas o meu pai tinha uma forma muito peculiar de vida. O sável para o escabeche tinha de ser cortado tão fininho quase como folhas de papel. Foi à loja de ferragens e comprou uma faca comprida e serrilhada com que a minha mãe cortava o peixe. O escabeche com muito vinagre era feito na semana anterior. Na semana seguinte comia-se este. Esta semana era feito o que se comerá na semana seguinte. Confuso? Claro que não! A rotina já estava tão enraizada que não fazia confusão a ninguém. Colocado na terrina velha e sem asa era comido com tal satisfação que até nós olhávamos gulosos. Que tempos aqueles!

Era assim todos os dias.

O mercado semanal era à segunda-feira. Não havia mais nada. E era à segunda-feira que se compravam as sardinhas. O resto tínhamos na quinta.

As sardinhas vendiam-se em caixas de madeira ugadas (dispostas em fila) cobertas de sal grosso, como soldados prontos para a guerra, cabeças direitas e no mesmo sentido. Comprava-as às mulheres da Senhora da Confiança. Talvez porque essas raparigas tinham umas mãos limpas com as unhas bem cortadas. Os aventais de peitilho debruados a espiguilha branca.

Chegado a casa eram colocadas num pequeno alguidar com carqueja para escorrer.

O almoço de segunda-feira era invariavelmente sardinhas assadas com batatas cozidas e salada de tomate, no tempo dele.

Mas o emprego dele, que adorava, era ser professor. E foi-o durante décadas.

No colégio fazia de tudo: professor, vigilante, encarregado da cozinha ou mesmo quem fazia os pontos de exame.

Se pensam que alguma vez me disse uma única pergunta dos próprios exercícios que fazia, enganem-se.

Os alunos que tinham família nas ex-colónias passaram muitas férias grandes lá em casa. Era um internato e funcionava como tal.

Também quando o jantar não agradava aos alunos era em lá em casa que “ aterravam”.

Nunca negou um prato de sopa ou um pedaço de presunto.

Era assim o meu pai.

Ao ler isto tenho a certeza que haverá, por aí, alguém a dizer:

– Coitado do Tem. Mendes Nunes. Que Deus o tenha! Foi meu professor!


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