17 de Outubro de 2018 | Quinzenário Regional | Diário Online
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Natércia Martins

Sons e cheiros

1 de Junho 2018

Gosto de me levantar cedo. Foi sempre assim. Também gosto de morar na aldeia. Há quem não goste de se levantar cedo e também há quem não goste de viver na aldeia. Cada pessoa tem gostos e ideias diferentes. Já pensaram que se fossemos todos iguais seria uma valente chatice?

Gosto de manhãzinha me sentar junto à varanda que tem vista sobre o pinhal. Podem pensar: ali não há nada!

Mas há.

Há os sons e cheiros do dia a nascer. O sol a romper no horizonte. Primeiro, pequeno, a raiar de vermelho e laranja. Depois o grande senhor que nos ilumina e aquece para no fim do dia “morrer” mergulhando no horizonte, precisamente da mesma forma e com as mesmas cores.

Mas que têm vocês a ver com isto? Nada? São os meus gostos? Pois são!

Talvez haja quem nunca tivesse pensado que os sons da manhã e os cheiros são diferentes do fim do dia.

De manhã é a alegria do dia a começar. O ar leve como se estivesse lavado, o cheiro da neblina que durante a noite se formou transfere-nos para os cheiros dos pinheiros e das plantas que bordam o caminho pedregoso por dentro da mata. Retenho o cheiro do alecrim, das rosas, do manjerico no vaso colocado no parapeito da janela.

A nossa vida é comandada pelo cérebro que retém tudo. Tudo lá fica.

Dou por mim a recordar o cheiro de quando a minha mãe fazia empadas de galinha, que eu fazendo tudo igual não consigo dar-lhe o mesmo cheiro nem o mesmo sabor.

É que ela cortava os pedaços de carne muito pequenos, todos iguais, assim como o chouriço que entretanto foi buscar ao fumeiro, o presunto da salgadeira e a pachorra de quem não tem muito que fazer. Refogava o dia todo no tacho de ferro no fogão de lenha durante horas, na parte menos quente. E aquilo ficava com o sabor e cheiro que nunca fica igual ao que eu faço.

A canja de galinha, a cabidela, o arroz de lampreia tinham um sabor e cheiro que hoje o fogão de gás ou eléctrico não lhe transmitem.

Hoje não tenho fumeiro nem salgadeira. Tudo vem do supermercado.

Recordo o cheiro do cabrito assado que a minha sogra fazia pela época da festa do Senhor dos Passos.

Ela fazia uma pasta com alhos pisados ou picados muito bem O colorau, o azeite, a pimenta. Fazia como um ritual. Depois numa lentidão que me irritava barrava cada bocadinho de carne com a tal paciência que se calhar era o que dava aquele sabor e cheiro que nunca consegui. Também usava o fogão de lenha.

Faço igual? Faço! Mas as mãos? Essas foram com elas, assim como os cheiros e sabores do que faziam.

E à tarde volto para a minha cadeira na varanda. Os cheiros e sons não são iguais a de manhã. Aqui nota-se o dia que vai acabar. O sino de uma capela a bater as trindades, que agora foram, na sua maioria substituídos por relógios cantando uma música religiosa.

Um cão que ladra e os sons de pessoas que regressam do trabalho. Também não são os sons que guardo na memória das pessoas que regressavam a casa vindo do trabalho da terra. Como eram diferentes!

Guardo esses cheiros e sons no meu cérebro que se enquistaram até à medula.

Acredito que cada pessoa tem na sua memória os sons e cheiros característicos de locais e sítios que nunca se esquecem.


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